O doutor Alvaro Rocha Vargas vem dedicando seus escassos vagares de Médico à difícil
tarefa de reviver os primórdios de sua terra natal. Árdua missão que, em seu caso
pessoal, tem muito de gratificante: é a oportunidade para resgate parcial de sua dívida
para com os pioneiros do povoamento da região, dos quais ele descende, tanto pela linha
materna, quanto pela paterna. Entre seus troncos está precisamente o casal Possidônio
Ribeiro Sant'Ana Vargas e Placidina Rocha Vargas, doadores da gleba em que se assenta a
sede do Município.
O lançamento do livro precipita-se agora pela proximidade do Centenário de Carazinho, a
transcorrer no fim do ano. Fujamos ao truismo de ressaltar a importância das monografias
locais para a história regional. Mas é bom lembrar, e sabem todos os que se defrontaram
com empreitadas semelhantes, quanto a obra impressa está longe dos nossos sonhos. Depois,
o bom livro, como escrevemos alhures, resulta de sucessivas revisões e re-elaborações.
Andou bem ele estudando, num primeiro momento, a história da comuna, a partir das
reduções de São Carlos do Caapi e de Santa Thereza, de confusa memória, para chegar
até a hora da instalação do Município, a 24 de fevereiro de 1931. De lá para cá,
tudo será mais fácil. É possível vir ele socorrer-se de muito relato de história
oral, ler e decifrar cartas e fotografias guardadas em velhos baús, ou revisar numerosos
escritos feitos na imprensa.
Com este livro, o Autor presta um serviço de primeira ordem a Carazinho, qual seja o de
implantar os alicerces de sua História. Os que vierem depois, certamente hão de se
apoiar nestas fundações para continuar o edifício.
A leitura destas páginas é extremamente fértil em sugestões, desde o primeiro
capítulo, em que ele esmiuça a controvertida origem do curioso topônimo. Não menos
interessantes a passagem dos Jesuítas pelo seu território, a famosa Expedição do
Alferes Atanagildo Pinto Martins e a vinda dos primeiros povoadores, de origem paulista,
logo após. Esta é, sem dúvida, uma das fases mais importantes do povoamento da região,
de que descenderam os ascendentes da linha materna do Autor. É a hora do
"bandeirantismo pastoril", segundo a expressão de Oliveira Vianna, que explica
a presença dos paulistas em Nonoai, Passo Fundo (Município-mãe de Carazinho), Cruz Alta
e Palmeira das Missões, em obediência a um duplo interesse: o econômico, pela
exploração a gadaria remanescente dos Jesuítas e o estratégico, pela necessidade de
defesa do território missioneiro, incorporado ao Brasil após a façanha de José Borges
do Canto, em 1801.
Conhecendo bem a tenacidade do Autor, sabemos que ele não vai descansar após esta
primeira fase de seu grande projeto, mas prosseguir, com redobrado entusiasmo, a evocar o
passado, nunca modelo, mas sempre exemplo a servir de inspiração, assim como analisar o
presente, possivelmente num outro livro em que possa apontar os próximos passos de uma
das comunas mais ricas do Planalto Rio-Grandense.
Para isso ele disporá da cooperação de seus conterrâneos, do bom documentário
existente nos Arquivos, particularmente no Estadual, entregue a Competência do grande
cruzaltense Moacyr Domingues e dos estudos, já bastante adiantados em nosso meio, sobre
assuntos de natureza agropecuária.
Consideramos um dever dos que escrevem hoje sobre temas relacionados com a vida de nossas
comunas, ajudar na compreensão do grande problema contemporâneo que é o uso correto da
terra.
Dirão alguns que isso não é função de historiadores. Ao que pedimos licença para
retrucar: a História é precisamente a mestra capaz de iluminar nossos caminhos e nos
apontar os melhores rumos.
Sabemos que Alvaro Rocha Vargas também assim pensa, e vai continuar com a filosofia de
servir, como bom rotariano, aos superiores interesses de seu rico torrão natal.
Porto Alegre, dezembro de 1980.
|