Do Caapi ao Carazinho
Introdução



Tínhamos como meta escrever um livro. Há alguns anos juntávamos algum material sobre a história da família Vargas e da cidade de Carazinho. Pensávamos que talvez dentro de uns dez ou mais anos estaríamos preparados para escrevê-lo.

O motivo para isso foi surgindo aos poucos, a medida que nos interessávamos pelas coisas antigas e pelo passado.

O impulsor principal creio que foi meu pai, Leopoldo Vargas, que com seu espírito metódico e persistente armazenou centenas de publicações durante dezenas de anos, toda uma vida. Com memória privilegiada, conta fatos ocorridos há muitos anos como se tivessem ocorrido ontem. Aos poucos isso foi sendo gravado em nossa lembrança e sentimos a necessidade de que deveria ser preservado.

Percebemos que nada havia sido escrito sobre a história de nossa terra e de nosso povo. Existiam somente fragmentos esparsos ou resumos de uma história tão rica em fatos como essa.

Lentamente nos conscientizamos que se para nós era difícil, muito mais o seria para nossos filhos. A cada dia que passasse mais esses fragmentos se perderiam por entre nossos dedos. Havia a necessidade urgente de que uma pessoa os coletasse, arquivando-os, organizando-os. Notamos que seria um trabalho para duas décadas.

Como todos os empreendimentos difíceis sempre nos fascinaram, passamos ao trabalho lento e persistente da coleta de dados.

Olhando os nossos filhos, Alvaro César, Paulo Roberto e Beatriz, fomos tomando conhecimento de que alguém deveria contar-lhes daqui a muitos anos, quando estivessem interessados, a história da terra e da família.

Estávamos nesse ponto quando as coisas começara a se precipitar.

A proximidade do Centenário da doação da terra, data efetiva da fundação do povoado, assim como o Cinqüentenário de Emancipação, trouxeram uma certa intranqüilidade ao nosso espírito. Sentimos cada vez mais uma certa pressão para que alguma coisa fosse feita, para que não deixássemos passar em branco datas tão significativas.

Nossa formação foi feita em uma instituição que nos marca indelevelmente. Rotary International nos impulsiona para os trabalhos comunitários. Passamos da fase familiar para outra, onde percebemos que havia necessidade premente de mostrar à comunidade, à juventude, a todos enfim, o que foi o nosso passado.

Nesse momento sentimos a presença de uma pessoa que nos incentivou de todas as maneiras. Roberto Sehn, com a sua maneira de ser, preocupado também ele com os problemas comunitários e com a preservação da memória e das tradições, nos emprestou muito de sua força moral.

E do livro que pretendíamos surgiram estas notas. Talvez aquele livro, repleto de dados e citações, esgotando o assunto, seja publicado algum dia. Acredito que a vontade de juntar material, de pesquisar bibliografias, continue.

A intenção atual é marcar duas datas importantes, o Centenário da Fundação e o cinqüentenário da Emancipação, com uma obra quase didática, que sirva aos jovens, às escolas e a todos como um princípio de conhecimento do assunto, que os leve a meditar sobre os que nos antecederam. Talvez, algum dia, um deles possa se inspirar neste pequeno trabalho, assim como o fizemos naqueles fabulosos livrinhos de Francisco Antonino Xavier e Oliveira.

Eles foram nossa fonte principal de pesquisa. Porém não podemos deixar de citar Mozart Pereira Soares, nosso mestre e amigo, que no seu "Santo Antônio da Palmeira" traça definitivamente o que deve ser um livro histórico de uma cidade.

Também Walter Spalding, outro de nossos mestres; assim como Hemetério Veloso, que no passado pincelaram como gênios os nossos panoramas.

Finalmente, entre tantos que deveríamos citar, Astério Canuto de Souza, que tornou o seu "Jornal da Serra" um documentário notável do período da emancipação.

Procuramos, em capítulos curtos e precisos, mostrar trezentos anos de história. De São Carlos do Caapi, redução jesuítica fundada em nosso território em 1631, até a emancipação política e instalação da Prefeitura em 1931.

Julgamos que o período de 1931 até os nossos dias seja bastante mais fácil de pesquisar, e no entanto mais difícil de escrever pela proximidade e pelos sentimentos que ainda estão latentes e bem vivos no coração de todos.

Talvez mais tarde nos aventuremos nessa seara.

Pela primeira vez escrevemos alguma coisa para as pessoas lerem. Até agora a nossa experiência tinha sido somente na transmissão oral e no sentido de motivação. Passamos ao registro escrito e na tentativa de sermos impessoais.

Como agradecimento final queremos citar uma pessoa que faz parte anônima da autoria do trabalho. Ely sentiu como ninguém e acompanhou o meu entusiasmo. Leu os capítulos, opinou quando necessário. Enfim, participou em todas as horas que ganhamos trabalhando.