Do Caapi ao Carazinho



IX - Carazinho no fim do século



Neste capítulo procuraremos abordar aspectos diversos do povoamento de Carazinho, naqueles tempos ainda chamado Jacuhyzinho.

Os fatos que marcaram os dois últimos decênios do século XIX, no 4º distrito de Passo Fundo, foram em primeiro lugar a campanha pela abolição da escravatura, em segundo lugar a Revolução de 1893 e finalmente a divisão do 4º Distrito em seções, sendo a primeira denominada Carasinho.

O movimento abolicionista encontrou Jacuhyzinho em uma situação muito peculiar. Existiam escravos, mas poucos se compararmos com outras regiões. Talvez pelo fato de se encontrar longe dos grandes centros escravagistas, talvez pela índole do fazendeiro daquele tempo, ou muito mais provavelmente pela situação econômica local, que impossibilitava a aquisição de muitos escravos. Além disso era região de colonização recente, na qual não estava ainda formada uma tradição de escravatura.

Já em 1884 a Câmara Municipal de Passo Fundo nomeou a Comissão Abolicionista do 4º Distrito, para que, como se dizia então, "propagasse a necessidade de lavar a nacionalidade daquela mancha aviltante".

Era constituída, a referida comissão dos cidadãos, por Antônio Ribeiro Sant'Anna Vargas, Capitão João Luiz dos Santos, Firmiano Pereira de Quadros e Tenente Braz Ferreira Martins.

Esses homens seriam os encarregados de motivar os demais moradores para se integrarem na campanha abolicionista, e o fizeram com êxito. A Lei, em 1888, encontrou aqui negros libertos em sua maioria, porém morando com seus patrões a quem se tinham apegado pelo bom relacionamento que havia com eles.

Alguns anos após, em plena Revolução de 1893, alguns episódios foram marcantes. Houve uma migração importante do povo. Em virtude dos boatos sobre a atrocidade que havia nos combates e sobre o tratamento dado à população civil pelos combatentes, muitas foram as famílias que se retiraram para o norte, acompanhadas ou não pelos seus chefes.

Assim como na Revolução de 1835, quando o General Portinho, em outubro de 1843, na retirada de Cruz Alta para Rio Pardo, acampou nas alturas da Estância Nova, agora município de Carazinho, e enviou para Passo Fundo um piquete em exploração, também em 1893 o nosso território seria passagem de tropas.

Ângelo Dourado, médico da coluna de Gomercindo Saraiva, no seu livro "Voluntários do Martírio", relato da Revolução de 93, afirma:

"Perto de Passo Fundo há uma povoação com o nome de Carasinho. Os habitantes do lugar, sabendo de nossa aproximação e pelo que diziam de nós os castilhistas para aterrorizá-los, fugiram todos para o mato, levando consigo velhos e crianças.

Só uma mulher ficou ali e nos dizia que tinha ficado porque preferia nos ver a ir morrer de frio no mato, e que afinal os outros é que eram maus porque prendiam, açoitavam e matavam e que nós passamos sem nada fazer, sem arrombar uma casa.

Aconselhei-a que fosse ao mato, que não era longe, chamar aquela pobre gente para as casas. Antes de me retirar já eles começavam a aparecer.

No cemitério do lugar há um carneiro feito há pouco tempo, onde por único ornamento ostenta-se com todas as cores e bem desenhado o antigo emblema do Brasil com a coroa imperial.

O que ali está, dizem, vendo os horrores que se praticavam em nome da República, se enfermara e conhecendo que ia morrer ordenara que lhe pintassem no túmulo as armas do Império".

Outra passagem refere-se ao relato do trânsito pelo território de Carazinho das tropas dos tenentes-coronéis Elisiário Prestes e Borges Vieira, no comando de 600 federalistas, que seguiam para Passo Fundo. Conforme Wenceslau Escobar, uma força republicana perseguida fugiu para Cruz Alta, perdendo na fuga, nas imediações do Carahasinho (grafado dessa maneira!) parte da bagagem, consistente de três cargueiros carregados, duas carretas com gêneros diversos, bois mansos, gado de corte e animais cavalares.

Fato de grande relevância passado quase nos limites do Distrito foi o combate do Pulador, considerado o mais sangrento de todos os acontecidos em 1893, onde tombaram algumas centenas de combatentes, na antiga fazenda dos Mellos, combate esse narrado em carta pelo General Gomercindo Saraiva, comandante das tropas.

Na época atendia a capela local, de Nosso Senhor Bom Jesus, o Vigário de Passo Fundo Padre Thomaz da Silva Ramos, que seguidamente vinha oficiar para os seus paroquianos e que era muito bem quisto entre todos. Foi esse padre preso em Passo Fundo e trazido até junto ao arroio Carazinho, no Passo, onde foi degolado. Esse fato teve, como seria natural, grande repercussão. Posteriormente se criaria o hábito de venerar o Padre no lugar onde foi sepultado. Há alguns anos seus restos mortais foram transladados para a Catedral de Passo Fundo, a pedido do Bispo Diocesano.

Todo o movimento criado com a Revolução repercutiria na política local. Como conseqüência foram efetuadas prisões. Ente os presos em Passo Fundo, mais de quarenta cidadãos, no dizer da época: "os mais conspícuos da localidade" figuravam os moradores do Jacuhyzinho: Elesbão Felix Martins, Polidoro Ferreira de Albuquerque, Antônio Ribeiro de Santana Vargas, Fermiano Pereira da Cunha e outros.

Cita Wenceslau Escobar, no seu livro "Apontamentos para a História da Revolução Rio-Grandense de 1893, como mortos em Carazinho, Estavam Korçab, polaco e o capitão Vicente Braz Ferreira Martins.

Isso tudo, somado à constante passagem de tropas pelo caminho natural, que era o topo da Coxilha Grande, veio esmorecer o entusiasmo pelo progresso da região.

Mesmo assim, após a divisão do 4º Distrito em 3 seções, sendo a primeira o Carasinho, em 1º de maio de 1896, em ata do Intendente Municipal de Passo Fundo, Gervásio Lucas Annes; e com a chegada do telégrafo e da estrada de ferro reiniciou-se o progresso.

Na passagem do século Carasinho tinha aproximadamente 150 casas, sendo 10 de negócios em fazendas, secos e molhados; 2 açougues; 1 padaria; 2 lombilheiros; 2 sapatarias; 1 alfaiataria; 2 barbearias; 1 bilhar; 1 ferraria; 2 carpinteiros; 2 pedreiros; 1 olaria; tudo isso em 11 ruas de Norte a Sul, 12 de Leste a oeste e três praças. Tanto estas como as ruas iluminadas a querosene. A população excedia em 1903 a 6.000 habitantes, inclusive 900 na povoação.

Existiam duas aulas primárias mistas: uma pública e uma particular. Também uma Loja Maçônica.

Esse era o Carazinho do fim do século XIX e do raiar do século XX, pujante no seu progresso, confiante no seu futuro.