Do Caapi ao Carazinho



VIII - A doação da terra



Denominando-se Jacuhyzinho, a partir de 1857, como 4º Distrito de Passo Fundo, haveria de ser o Carazinho, como povoado, oficialmente iniciado em 1880, com a doação da terra.

Após as primeiras iniciativas para a formação do povoado, fato ocorrido, conforme a tradição em 1872, iniciou-se a capela, em local próximo de onde hoje se encontra a Matriz.

Segundo Hemetério Velloso, que por aqui passou algumas vezes, em 1872 Possidônio Ribeiro de Sant'Anna Vargas, possuidor de um campo cortado pela estrada geral de carretas, concedeu para dito fim e rocio da povoação a área superficial de 1.506.000 metros quadrados.

Logo principiou a distribuição dos terrenos urbanos para os primeiros habitantes, sendo esses: Vicente Braz Ferreira Martins, Simão Meireles da Silva, Fidelis Michelini, Polydoro Ferreira de Albuquerque, Belizário da Rocha Ribeiro, Galdino Rodrigues Marques, João Antônio de Barros, Maria Lourença da Conceição, Salvador Balté, Manoel Francisco Martins, Antônio Umbelino de Oliveira, João J. Martins, Antônio Corrêa Leite e Silva, José Franco de Almeida, Joaquim Moreira, Generoso Fanha, Vicente Antônio de Barros e Maria Joana Martins.

Mal essas dezoito pessoas tinham concluído suas casas tratou-se da capela, que em menos de dois anos estava pronta e tomou o título de Senhor Bom Jesus de Iguape. Posteriormente foi autorizada e efetuada sua benção.

Segundo Antonino Xavier, a oficialização da capela ocorreu em 14 de junho de 1880, sendo em 28 de abril de 1927 elevada a freguesia.

Chegamos então ao momento oficial da doação da terra. Com a morte de Pedro Vargas em 1878, seus pais Possidônio Ribeiro da Sant'Anna Vargas e Dona Placidina da Rocha Vargas, em memória do filho e honrando o compromisso por ele assumido, doaram a área a Nosso Senhor Bom Jesus do Iguape. A partir de então passava ao domínio da população uma área que hoje é delimitada e atinge praticamente toda a zona central da cidade, com exceção do bairro Glória.

Conforme cópia do mapa efetuado pelo Padre Pedro Wimmer, denominado "Planta do Carasinho", efetuado pelo Sr. Giacomo Reale em setembro de 1930, a área de 1590.934 metros quadrados iniciava à altura da travessa Oriental, onde a rua do Comércio (hoje Av. Flores da Cunha) encontrava os trilhos ao norte. Lá até a rua Bento Gonçalves (alturas do Grande Hotel), ao sul. No sentido Leste-Oeste ia da rua Felipe Camarão (próximo ao Grêmio Aquático) até três quadras abaixo da rua Sete de Setembro (hoje Av. Pátria). Abrangia aproximadamente 70 quarteirões.

A escritura foi efetuada pelo escrivão Antônio Umbelino d'Oliveira, na residência de Possidônio Vargas, no dia 28 de dezembro de 1880.

Tem o seguinte teor:

"Livro 2º, folhas - 4 e 4 Verso.

Escriptura publica de doação que fazem Possidônio Ribeiro de Sant'Anna Vargas e sua Senhora Dona Placidina da Rocha Vargas ao Senhor Bom Jesus, como abaixo se declara. Saibão quantos a presente e publico instrumento de Escriptura de doação virem, que sendo no anno de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos e oitenta, aos vinte e oito dias do mez de Dezembro, do dito anno, n'este Quarto Districto de Jacuhyzinho, Termo da Villa de Passo Fundo, Comarca do mesmo nome e Provincia de São Pedro do Rio Grande do Sul, e casas do Cidadão Possidônio Ribeiro de Sant'Ana Vargas, aonde fui vindo eu escrivão, ahi presentes os doadores- Possidônio Ribeiro de Sant'Anna Vargas e sua Senhora Dona Placidina da Rocha Vargas, ambos conhecidos, digo reconhecidos de mim escrivão e Paz e duas testemunhas no fim declaradas e assignadas, de que dou fé. E logo pelos mesmos doadores me foi dito, em presença das ditas testemunhas, que elles são Senhores e legítimos possuidores d'uma parte de campo, sito n'este Districto, e o qual já foi ocupado por moradia do passo d'este districto, e cujo campo houverão por fallecimento de seu finado filho Pedro Ribeiro de Sant'Anna Vargas, por ter este comprado de Manoel Francisco Martins, e com as divizas exaradas na Escriptura daquella compra e a qual consta do seguinte: "Divide-se com os campos dos herdeiros do finado Francisco Marcondes de Quadros, por uma canhada, e depois com Manoel Francisco Martins, por um vallo, e depois com Francisco Floriano d'Oliveira, por um Boqueirão, e este por ter herdado do finado Sebastião José de Camargo, e depois com os campos dos herdeiros do finado Francisco Leandro Martins, e depois finalmente com Joaquim José da Silva, até encontrar com a diviza primeiro mencionada; e cuja parte de campo de sua livres e espontâneas vontades e sem o mínimo constrangimento, fazem doação de hoje para todo sempre, com as divizas acima descriptas - ao Senhor Bom Jesus - Padroeiro d'este Povo começado, e no valor dita doação de duzentos mil réis. Pela presente doação transferem aos representantes do dito Senhor Bom Jesus, todo o juz, domínio e Senhorio que de direito tinhão na referida parte de campo, podendo assim continuar o povo à sua prosperidade. E assim me pedirão elles lavrasse o presente instrumento de Escriptura de doação que lhes li, acceitarão, e assignão, sendo a voz da doadora, por não saber escrever - Antônio Ribeiro de Sant'Anna Vargas, em presença das testemunhas - João Baptista de Camargo, Francisco Baptista de Camargo. O escrivão - Antônio Umbelino d'Oliveira. O referido é verdade, escripta do seu próprio original do que tracto e dou fé. Eu Antônio Umbelino d'Oliveira, escrivão de Juiz de Paz a subscrevi e assigno em publico e razo

Em Test.º De Verdade

Estampilha de 400 réis

o escrivão Antônio Umbelino d'Oliveira

6º Districto de Jacuhyzinho, 21 de janeiro de 1881".


Estava assim selado o destino do povo começado. Já com augúrios de prosperidade e sob o signo da fé. Não tardaria muito e ele seria posto a prova, principalmente durante a revolução de 1893.

Muitas divergências surgiram com relação à escritura. Alguns tentaram anulá-la. Até os dias atuais ações se fazem por dúvidas existentes.

Mas o povoado que surgiria, aqui na coxilha, onde já existiam alguns moradores, já existia uma capela, seria um dos núcleos primitivos que começavam a pontilhar a nossa Província. Nascido sob o signo da esperança, vislumbrado por um homem que teve o mérito de iniciar a caminhada rumo ao futuro.