Do Caapi ao Carazinho



VII - Pedro Vargas



O escultor Vasco Prado, ao executar há alguns anos atrás a estátua do "Gaúcho Bombeador", que hoje se encontra em frente à Estação Rodoviária, em pequena praça ali existente, inspirou-se na figura do fundador de Carazinho para executá-la.

Elogiada por muitos, e por muitos não conhecedores de seu significado, ridicularizada, tem essa obra um significado bastante profundo e que foi bem expresso pelo artista.

Representa um homem, ligado à terra, com uma base muito firme, trajes típicos do Rio Grande, traços fisionômicos lembrando o índio missioneiro, com a mão em pala fazendo sombra aos olhos, que estão fixos no horizonte. Na mão tem uma longa lança que se apoia no solo.

Essa imagem representa aquele que, fixando-se a este rincão de solo, então pouco habitado, aderindo às suas tradições, olha o futuro com confiança, afastando com a mão o que possa atrapalhá-lo, em atitude de paz e ao mesmo tempo de defesa do território.

No longínquo ano de 1872, conta a tradição, em uma cancha de carreiras existente no local onde hoje está a nossa Avenida Flores da Cunha, na direção da Prefeitura para os lados da saída de Passo Fundo, possivelmente em uma tarde de domingo, Pedro Ribeiro da Santana Vargas, jovem habitante das redondezas, talvez tenha dito a seu pai Possidônio Ribeiro da Santana Vargas:

"- Que lugar bonito, meu pai, para construir uma capela e fundar um povoado".

Repetia ele um desejo de todos que há alguns anos sonhavam com um novo centro populacional como aquele de onde procediam.

E não pensando mais, Pedro Vargas botou mãos à obra, organizando uma lista de contribuições para adquirir a terra que pertencia a Floriano José de Oliveira. Abriu-a com 120 mil réis, conseguindo mais 80 mil réis, totalizando os 200 mil réis, que era o preço da terra.

Mas quem era esse moço de ideais tão nobres e de visão tão segura? - Herdeiro de tradições distantes, de homens saídos da região central da Espanha, com toda a certeza de Vila Vargas, cercanias de Toledo, nascentes do rio Douro. Homens esses chamados Vargas pelos mouros invasores, em cuja língua "Var Has" queria dizer homem da planície, homem da estepe.

E um deles, resolvido a conhecer novos mundos, partiu para o novo Continente rumo ao México, então colônia espanhola. De lá, após algum tempo, para o Brasil, mais precisamente Minas Gerais.

Alguém nos disse que se chamava Miguel. Tempos após foi morto em conflito armado. Seu filho, José Carlos Santana Vargas, vingando a morte do pai, teve que fugir rumo ao sul prometendo construir uma capela onde não mais o perseguissem. Esse momento chegou na localidade de Ponta Grossa no Paraná, onde o bisavô de Pedro Vargas construiu a capela de Nossa Senhora de Sant'Ana, a primeira de Ponta Grossa.

Esse pioneiro, lançando raízes à terra, casou com uma índia, da tribo dos Coroados, chamada Quitéria.

Desse casamento nasceu Miguel, que possivelmente conservava um nome tradicional de família. Ccasou-se com Maria Angélica e migrou para o sul, como descrevemos anteriormente. Ao voltar a Ponta Grossa, deu origem a Possidônio, que se casaria com Placidina da Rocha Vargas.

Possidônio, a conselho do pai, rumou para o sul, para aquela coxilha conhecida, em busca de um futuro risonho.

Acompanhavam-no os filhos menores: Antônio, José Antônio, Miguel, Anna Maria, Ambrozina e Pedro. Talvez também o acompanhassem outros familiares, porém não temos certeza absoluta.

Aqui fazemos a primeira constatação com relação a Pedro Vargas. Não era gaúcho por nascimento, nem por escolha, já que foi trazido pequeno por seus pais. Seria um gaúcho por espírito? Talvez, porém como patrão e não como peão de estância. Dificilmente teria o espírito gaudério que caracterizava o gaúcho da época.

Vemos a reprodução de suas fotos, em todas elas emoldurado por roupas domingueiras, em gravata, casaca preta e colarinho alto, característica que certamente não teria o homem que somente trabalhava o gado.

Rapaz extrovertido, alegre, cuja maior satisfação era participar, quando possível, de festas e bailes. Integrado no sistema da região, onde o domingo de carreiras era o ápice da semana, sentiu o apelo jovem e a ânsia de viver em um local que trouxesse até ele um pouco da civilização que conheceu em suas viagens.

De caligrafia bem talhada, coisa não muito comum na época, mostra-nos que poderia ter um nível cultural acima da média.

E após o memorável domingo de carreiras, conforme a tradição novamente, ocorrido em 1872, onde se iniciou a doação da terra para o povoado, e que efetivamente se concretizaria em 28 de dezembro de 1880, novamente os desígnios do Destino. No seu afã de transportar tropas de gado, ao atravessar o Rio da Várzea, próximo a uma cachoeira ali existente, ou talvez no arroio dos Cabritos durante uma cheia, surgiu a fatalidade: Ao tentar salvar a vida de um escravo que se afogava, encontrou a morte por afogamento. O mesmo escravo que o teria salvo em São Paulo na passagem do Ribeirão do Iguape, anos antes.

Ouvimos uma versão, a qual não damos muito crédito, que se suspeitava de morte por crime, em virtude de haver desaparecido o dinheiro que levava. A primeira versão é mais consistente e a que nos chega através de fontes de confiança.

Deixava de existir aos 33 anos um homem, pelos padrões da época, um pouco antes do que seria previsto; pelos padrões atuais, muito cedo.

Nascido em Ponta Grossa em 09 de novembro de 1844, faleceu em Carazinho em 08 de agosto de 1878.

Pedro se eternizou em uma idéia. Teria ele sonhado com alguma coisa parecida com o que estava por vir? Com toda certeza não. Um homem dificilmente pode imaginar o que será o futuro. Poucos são os Júlio Verne que têm a capacidade de levantar a cortina do tempo e espiar do outro lado. A nossa visão é limitada com relação a isso. E cem anos são muitos para que possamos imaginá-los.

E assim nasceu Carazinho. Com a presença de homens que pertenciam a uma sociedade já desenvolvida, como Ponta Grossa, Castro, Curitiba, e outras, migrando para uma região completamente desabitada e sem nenhum dos confortos conhecidos então. Sabendo do perigo dos índios e da total falta de recursos a que seriam submetidos. Cremos que essa atitude não tem termos de comparação com nenhum dos movimentos de colonização atuais, quando as comunicações são instantâneas e o transporte rápido.

Partiria o povo começado para uma nova etapa que seria a da formalização da doação da terra e da ocupação da mesma.

Foi enterrado Pedro Vargas no antigo cemitério de Carazinho, localizado à época onde estão hoje os prédios nºs 594 e 618 da Av. Flores da Cunha.

Posteriormente seus restos mortais foram transladados para um jazigo da família Vargas, no segundo cemitério, que se localizava na esquina da rua Itararé com Princesa Isabel, na Glória.

Em 20 de janeiro de 1963, por iniciativa do Padre João Gheno Neto, foram transladados para a Igreja Matriz de Nosso Senhor Bom Jesus, onde se encontram.