Passamos agora a abordar um aspecto
bastante interessante da colonização de Carazinho, que na época ainda não tinha nome
definido, sendo chamado principalmente de Jacuhyzinho.
Voltemos ao ano de 1861 e analisemos o que havia aqui então.
Para isso devemos recorrer a um relato valiosíssimo de Hemetério Velloso da Silveira,
feito em seu livro "As Missões Orientais e seus Antigos Domínios", editado
pela ERUS, em Porto Alegre, no ano de 1909. Narra o autor uma viagem feita de Cruz Alta a
Passo Fundo em 1861, e outra em 1866.
São suas as palavras:
"Ao terceiro dia passamos o lugar denominado Braz, o Capão Glória, o arroio
Carazinho, a morada de Sebastião Camargo, o local já então destinado para a povoação
e capela de Bom Jesus; após uma larga troteada, a estância do finado Generoso de
Albuquerque ou da Bela Vista (cujo nome bem lhe assenta), a estância velha do Ajudante
Albuquerque, no lugar denominado a Divisa, nosso descanso meridiano".
E diz em outro trecho Hemetério Velloso: "Outra povoação, maior que a precedente e
quase ao mesmo tempo fundada é a chamada Carazinho, distante 62 quilômetros da cidade.
Conhecemos a localidade em 1861 e 1865 em duas viagens de ida a Passo Fundo e volta para
Cruz Alta. A esse tempo não tinha mais de quatro casas, distanciadas entre si,
residências de outros tantos proprietários. Uma delas na descida de um atalho para o
arroio era de negócio e pertencia a Sebastião de Camargo (há muito falecido) o qual
pensava em fundar aí uma freguesia. Mas o primeiro passo a dar seria a edificação de
uma capela, que, conforme a legislação eclesiástica, tivesse o competente patrimônio
ou passal".
Notem então os leitores que mais de dez anos antes da aquisição da terra que seria
doada, e muito antes do seu povoamento pelos primeiros donatários, já havia a idéia
quel não se concretizava pela falta da terra exigida pela Igreja para a feitura da Capela
e freguesia.
Portanto, iniciava-se um pequeno núcleo de quatro casas, cercado por um território rural
de várias fazendas ocupadas por descendentes de paulistas e curitibanos, entre eles:
Joaquim Pacheco da Silva Rezende, na costa do Jacuhyzinho; José Francisco de Oliveira,
Bernardo Pereira de Quadros, Teodoro Rocha Ribeiro, Braz Alves Martins, Francisco Xavier,
Francisco Leandro Martins, Floriano José de Oliveira, Joaquim Manoel, José Antônio de
Quadros, Alexandre Luiz da Silva, Manoel ferreira. Também Francisco Marcondes de Quadros,
que adquiriu a fazenda Rincão da lagoa do Alferes e primeiro morador Rodrigo Felix
Martins. Em São Bento vivia Joaquim Manoel de Quadros. Em São Benedito, por herança do
sogro Rodrigo Félix Martins, estava Antônio Pereira de Quadros.
Também podemos citar, no Capão do Leão, a estância de Antônio Francisco Martins
fazendo divisa com Alexandre José da Motta, Francisco Marcondes de Quadros, Teodoro da
Rocha Ribeiro e Manoel Ferreira.
No Pulador, Francisco Antônio de Almeida vizinhava com o Alferes Bernardo Castanho da
Rocha, com Floriano Pinto e o Capitão Manoel José das Neves.
Também a estância da Glória era desfrutada por Francisco Gonçalves Martins,
limitando-se com terras de Floriano José de Oliveira, Manoel Francisco Martins, Braz
Alves Martins e Francisco Xavier Martins.
No chamado Pontão da Glória, Serra do Jacuí, morava o ajudante Antônio Ferreira
Albuquerque, o qual vizinhava com Constantino José Rodrigues.
Em São Miguel, hoje limite do município de Não-Me-Toque, moravam Lourenço Marcondes de
Quadros, Tomé de Almeida e Gaspar José dos Reis.
No Herval, o Tenente-Coronel Francisco Barros de Miranda era lindeiro com o major Diogo
José de Oliveira, João Mendes e José Alves Leite.
Na Boa Esperança, Evaristo Francisco de Borba vizinhava com Salvador Carasso e Antônio
Cardoso.
Na Estância Bom Retiro, o Tenente-Coronel Manoel Francisco de Oliveira era vizinho
também de Alexandre José da Motta e de Lourenço Marcondes de Quadros.
Na fazenda do Pulador, entre o Rio da Várzea e o Passo do Erval, João Antônio Ferreira
de Mello extremava com os campos do Capitão Bernardo Paes, com Antônio Novaes Coutinho,
Tenente-Coronel Manoel Francisco de Oliveira e Antônio Vicente de Albuquerque.
Na Cachoeira do Pulador, Bento José de Souza.
Na Vendinha e Potreirinho, João Gonçalves de Brito.
Portanto, quase cinco dezenas de homens já multiplicavam a herança dos três ou quatro
primeiros moradores, em apenas vinte e poucos anos.
Deles descenderiam os troncos principais das famílias carazinhenses, dos quais muitos
ramos ainda se encontram em atividade no nosso território.
Alguma coisa faltava para aglutinar esse povo em torno de uma capela. Faltava a terra.
O padroeiro estava escolhido. Seria Nosso Senhor Bom Jesus.
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