Clemenciano Barnasque, no seu livro
Ephemerides Rio-Grandenses, edição da Livraria Selbach em 1931, narra:
"Por fins do século XVIII viviam em Ponta Grossa, no Estado do Paraná, Miguel de
Santana Vargas, casado com a mulher de nome Maria Angélica, descendente dos índios
"coroados" daquele Estado. Por motivo de um crime praticado por Maria Angélica,
matando, armada de um espeto de ferro, a um escravo que tentava assassinar seu marido, foi
esse casal obrigado a ausentar-se de Ponta Grossa, por volta do ano de 1825, buscando, em
companhia de alguns escravos, o território do Rio Grande.
Nessa peregrinação através dos sertões desconhecidos, veio Vargas deter-se no atual
município de Passo Fundo, no local denominado Cruzinha, no 4º distrito daquele
município, onde permaneceu durante cerca de um ano.
Voltando, depois, à Ponta Grossa, no firme propósito de regressar ao Rio Grande,
comunicou ao seu amigo Rodrigo Félix Martins o seu propósito. Este, adiantando-se de
Vargas, apressou-se a vir para o Rio Grande, sendo que se vê do trecho abaixo transcrito
de um interessante trabalho do Sr. Francisco Antonino Xavier de Oliveira - o primeiro
povoador de Passo Fundo"...
O Alferes Rodrigo Félix Martins, nascido na Vila de Castro, no Paraná, filho do
capitão-mor Rodrigo Félix Martins, e irmão de Athanagildo Pinto Martins, já citado
anteriormente, pode ser considerado o primeiro morador efetivo da região, tendo-se
instalado em terras concedidas pelo comando da guarnição de São Borja, no Pinheiro
Marcado, hoje município de Carazinho. A doação efetivada em 1824 somente foi ocupada em
1827, possivelmente em virtude das dificuldades encontradas.
Segundo narrativa de Francisco Xavier de Castro, que conhecia este território desde 1822,
e que faleceu com a idade de 99 anos na Fazenda dos 3 Capões em Passo Fundo, havia grande
perigo na passagem por estas terras, sendo inclusive os tropeiros provenientes de São
Paulo constantemente atacados pelos bugres. Este fato retardou o início da colonização
e a instalação dos primeiros moradores.
A fazenda de Rodrigo Félix Martins foi denominada "São Benedito".
Em 1835 o dito Alferes teve de emigrar em virtude da Revolução Farroupilha, para a
cidade de Curitiba, de onde só regressou terminada a luta, achando completamente deserta
de criação a sua estância que deixara bem povoada.
No seu livro "Terra dos Pinheirais", publicado em 1927 pela Livraria Nacional de
Passo Fundo, nos diz Francisco Antonino Xavier e Oliveira: "Logo ao sair de Pinheiro
Marcado para esta cidade (Passo Fundo), o trem de Santa Maria passando junto a velho
cemitério que ali existe, contemporâneo talvez, em suas origens, dos primeiros dias do
povoamento daqueles campos pela gente civilizada brasileira, entra numa depressão do
terreno, permitindo que o viajante nele instalado, aviste à direita, ao longe, além de
uma restinga fluvial, no declive de alta coxilha, um grupo de árvores cuja disposição
faz supor que sejam sobreviventes de moradia que o tempo extinguisse de longa data, porque
de casa e benfeitorias, se existiram, vestígios não aparecem lá".
Eram os resquícios da antiga fazenda de São Benedito, morada do pioneiro Alferes Rodrigo
Félix Martins.
Morreu o Alferes Rodrigo em 1851 aproximadamente e suas terras formaram por partilha as
estâncias da Cadeia, do Capão Bonito, do Campo Bom e outras.
Parte dessa estância, foi adquirida pelo Tenente Coronel Joaquim Pacheco da Silva
Rezende, que estava estabelecido às margens do Jacuizinho.
Outro personagem importante em nossa História e dos primeiros moradores a se estabelecer
na área foi Bernardo Paes de Proença, não somente Bernardo paz, como o temos em nome de
rua. Localizou-se também em 1827 no Rincão do Pecegueiro, área próxima da localidade
de Pulador, às margens do arroio do mesmo nome, área onde hoje se encontra o arroio
Bernardo Paes, afluente da margem esquerda do rio Passo do Herval. Essa área de terra
também concedida pelo comando de São Borja foi provavelmente a segunda ocupada, conforme
narrativa do já citado Francisco Xavier de Castro.
Sendo partidário dos legalistas ou caramurus, que apoiavam o Governo Imperial, por
ocasião da Revolução de 1835 foi Bernardo Paes de Proença apanhado por uma força
contrária e somente libertado a rogo de uma senhora chamada Joaquina, moradora das
imediações da localidade de São Miguel, que ficou conhecida desde então como
"Farrapa".
Em outra ocasião, chegando um comandante legalista á casa de Bernardo e queixando-se da
falta de dinheiro para pagar a tropa surpreendeu-se quando Bernardo, entrando para o
interior da casa, arrastou pela alça uma canastra de "onças" (moedas de ouro)
que pôs à disposição do Comandante para pagamento da tropa.
Esses fatos servem para mostrar o espírito de patriotismo e partidarismo que haviam
nesses longínquos rincões de terra, no início de sua colonização.
Faleceu Bernardo Paes de Proença em
1841, deixando fama de vida honrada.
Finalmente o terceiro morador a se estabelecer no território chamava-se Alexandre da
Motta. O lugar de sua casa era situado às margens da estrada velha de Passo Fundo, entre
Pulador e Carazinho, tendo a sua morada se chamado Estância Nova e posteriormente
Estância Velha. A sede da fazenda era situada no ponto em que passando o passo de Santo
Antônio havia uma bifurcação para os lados da hoje cidade de Não Me Toque. Francisco
Xavier de castro passando por aquele local encontrou-o ainda em construção, sendo que a
casa estava recebendo a coberta.
Tendo permanecido por alguns anos nesse local e receando o início da Revolução
Farroupilha, afastou-se Alexandre da Motta para São Paulo, de onde só retornou em 1841,
continuando a viver ali até a sua morte, em data não precisa.
Foram portanto esses três os pioneiros da colonização: Alferes Rodrigo Félix Martins,
Bernardo Paes de Proença e Alexandre da Motta.
Todos os três chegados em 1827 e lembrados sempre como aqueles que tiveram a coragem de
desbravar o território, aqui morando com as suas famílias, apesar de todos os perigos
que poderiam enfrentar.
Foram os precursores de um punhado de homens, de descendentes de portugueses que viriam um
pouco mais tarde engrossar as fileiras daqueles que acreditaram em um mundo novo. Pois
para eles a esperança era mais importante do que tudo, pois instalando-se em terras
desconhecidas, nelas acreditavam e sonhavam com o dia em que aqui se instalariam todas as
comodidades do mundo do século XIX.
Note-se que todos os moradores colocavam-se à margem do território que hoje é o limite
urbano. Até então não haviam moradores nos locais hoje habitados pelos citadinos.
Somente anos mais tarde, ou seja próximo do meio do século foi que iniciou-se a
povoação propriamente dita.
Como sucessores dos três primeiros moradores já citamos anteriormente: o Tenente Coronel
Joaquim Pacheco Silva Rezende que adquiriu parte das terras do Alferes Rodrigo e logo
após teríamos a chegada de José Francisco de Oliveira, Capitão Bernardo Pereira de
Quadros, Teodoro da Rocha Ribeiro, Tenente Braz Alves Martins, Francisco Xavier, Francisco
Leandro Martins, Floriano José de Oliveira, Joaquim Manoel, José Antônio de Quadros e
tantos outros.
Começava a espalhar-se o leque de proprietários e de pessoas que participariam da
colonização que daria origem à vila de Jacuizinho, Carasinho, Assisópolis e finalmente
à cidade de Carazinho.
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