Do Caapi ao Carazinho



IV - A redescoberta da terra



A região do Albardão da Serra ou Coxilha Grande fez parte por muito tempo de uma zona conhecida por "Vacaria dos Pinhais".

A introdução do gado pelos jesuítas em 1629, da margem direita para a esquerda do rio Uruguai, foi o ponto inicial de um rebanho imenso que se propagaria aos terrenos baixos do rio Uruguai, que seria conhecido como "Vacarias do Mar", e ao planalto e serra.

Fontes de abastecimento de espanhóis e portugueses foram os rebanhos do gado chamado "chimarrão" formado quase espontaneamente.

Sobra a Vacaria dos Pinhais ou Campos da Vacaria, descreve em 1781 Francisco Roque Roscio:

"A terceira parte do terreno deste Continente e Governo do Rio Grande de São Pedro são os campos de cima da serra chamados Campos da Vacaria, que é uma extensão de terreno vasto e longo, cortado e banhado para os seus lados meridional e setentrional com vários rios que se esgotam da parte meridional para o Rio Guaíba e da parte setentrional para o Rio Uruguai. É formado ou levantado pelo meio com um Albardão Grande que se alonga e estende até as Aldeias e Campos das Missões Jesuítas no Uruguai e fechado pelos lados meridional e oriental com a Serra e a Cordilheira Geral; pelo lado setentrional com o Rio Uruguai, que tem seu nascimento na mesma cordilheira; e pelo lado ocidental, com a corda de mato (...) na passagem do Jacuí quando atravessa a mesma Serra".

Essa seria a terra a ser redescoberta.

Um dos capítulos mais importantes na História de nossa região foi o do desbravamento da terra após um período muito grande de total desconhecimento da mesma.

Com o aniquilamento das Reduções de São Carlos do Caapi e de Santa Tereza dos Pinheirais e Ervaçais, pela peste, pelos mamelucos e, finalmente, pelos bandeirantes que ocuparam o território por aproximadamente 30 anos e se retiraram talvez em 1667, nada mais se fez ouvir nestas paragens. Houve a volta total ao estado selvagem por parte das tribos que habitavam o território.

Começa nesse momento a entrada dos Guainás ou Kaigangs que vindos do norte atravessaram o rio Uruguai e lentamente foram se instalando, primeiro nos matos do Alto Uruguai e posteriormente na região do Planalto.

Seria um século e meio de silêncio, pois somente em 1816 passaria novamente uma expedição de brancos para procurar o caminho das Missões.

Sabemos que o caminho das Missões por sobre a Coxilha Grande, a partir de São Paulo passando por Palmas e os Campos da Vacaria e daí até as Missões, foi trilhado por muitas vezes, inclusive na expedição de socorro às Missões.

Porém, devidamente documentada somente a expedição comandada em 1816 pelo Alferes Athanagildo Pinto Martins, que seguiu um roteiro a partir de expedições anteriores e não documentadas.

A primeira delas, nos últimos dias de outubro ou primeiros de novembro de 1801, quando uma tropa mista de 128 auxiliares e aventureiros recrutados na Vacaria, comandados pelo Capitão João da Costa Varela, passou para as Missões através de uma picada para reforçar a guarnição portuguesa dos povos recém conquistados.

É necessário notar que na região de Lagoa Vermelha existiam ervais explorados de longa data, incluindo um caminho que passaria pelo Mato Português e pelo Mato Castelhano, esse já nas proximidades de Passo Fundo. Documentou-se a chegada da expedição a São Nicolau, que era o seu destino.

A volta desse contingente se fez com muito sacrifício, com tropas de gado arrebanhadas no caminho, pelos fins de 1802 ou 1803.

Aproximadamente em 1810, o Conde de Palma, como Governador da Província de São Paulo, resolveu organizar as chamadas "guerrilhas do sul". Eram grupos de 60 homens armados e com comando militar que buscavam estabelecer núcleos populacionais com base numa pequena fortaleza. Um dos mais famosos fortins do gênero foi o de Atalaia, localizado no planalto de Guarapuava, no Paraná, cerca de 114 léguas ao sul de São Paulo.

De Atalaia partiram várias missões, uma delas a do Coronel Diogo Pinto Azevedo Portugal e outras.

Pela ordem de 17 de agosto de 1815, passada pelo tenente-coronel Diogo Pinto Azevedo Portugal, citado acima, Athanagildo Pinto Martins assumiu o comando de uma tropa, em virtude de doença do referido tenente-coronel.

Tendo partido a 10 de janeiro de 1816 de Guarapuava, chegou a São Borja em 17 de abril do mesmo ano.

O alferes Athanagildo Pinto Martins era filho legítimo do capitão-mor Rodrigo Félix Martins, nascido na vila de Castro, no Paraná, e tendo um irmão com o mesmo nome do pai, Rodrigo Félix Martins, que viria a ser o primeiro morador definitivo do território de Carazinho.

A data de seu nascimento foi 08 de setembro de 1772, tendo falecido a 22 de outubro de 1852.

Sob seu comando estavam 12 homens: 1 prático - Antônio das Neves Ramos; 1 cabo - Francisco de Quadros; 2 soldados de linha - Barnabé Barbosa e Joaquim Gomes; e mais Guilherme José, Américo Manoel, Joaquim Donaire, José Ignácio e Manoel dos Santos. Ainda integravam a missão dois "bugres": Antônio José Pary e Jángongue.

Penetrando no território, vadeou o rio Iguaçu, abaixo da foz do Rio Jordão, saindo nos campos de Palmas, depois em Lages e Curitibanos. Já em território do Continente de São Pedro, atravessou o mato Português passando por Campo do Meio e, após seis léguas, chegando ao Mato Castelhano.

Posteriormente, abriu uma picada de quatro léguas e chegou aos campos desertos que seriam mais tarde Passo Fundo.

Seguindo pela coxilha onde estão os tributários do Jacuí e do Uruguai, hoje a Coxilha Grande, chamada "Albardão da Serra", onde se situa a cidade de Carazinho em nossos dias, passou para os territórios que seriam Cruz Alta, dando a volta por Tupanciretã e, após mais 56 léguas de viagem, ao povo de São Borja, na época a capital das Missões à qual pertencia quase todo o território abaixo do rio Uruguai.

Apresentando-se ao Comandante Geral Francisco das Chagas dos Santos, Athanagildo foi por esse encarregado de agradecer ao Governador de São Paulo tão proveitosa expedição. Também recebeu um mapa primitivo do território a ser percorrido na volta.

Empreendendo o seu regresso o alferes Athanagildo, na localidade de Pinheiro Marcado, dividiu a sua tropa e destacou oito homens sob o comando do cabo Carlos Neves para irem para o norte, encontrando-o posteriormente nos campos de Palmas. Ali chegando, tendo esperado por dois meses o resto da tropa, que mais tarde se soube foi massacrada pelos indígenas, retornou a São Paulo.

Foi então Athanagildo repreendido por sua conduta, tendo sido encaminhado à tropa na fronteira Oriental. Posteriormente por seus atos de bravura foi promovido ao posto de Capitão.

Mais tarde Sargento-Mor (Major) foi também vulto de grande destaque e importância em Cruz Alta, em cuja vida política tomou parte desde o início. Foi membro do corpo de jurados, vereador da primeira Câmara de Vereadores e Presidente da Câmara, quando em 01 de agosto de 1837 ela aderiu à República Riograndense.

Foi Athanagildo Pinto Martins também o pioneiro na criação de Santa Bárbara e, principalmente, de Palmeira das Missões.

Acreditamos hoje que a sua expedição foi a mais importante e a mais bem documentada. Principalmente pela sua ligação com o Alferes Rodrigo Félix Martins, do qual era irmão. Essa incursão deve ter sido de grande influência na instalação do Alferes Rodrigo, posteriormente, no Pinheiro Marcado, recebendo terras que pleiteou junto à guarnição de São Borja.

Athanagildo casou na vila de Castro com Ana Joaquina do Amaral, viúva de João Bonifácio Antunes, tendo-se tornado grande proprietário de terras em Cruz Alta. Teve seis filhos, dos quais resultou grande descendência.