Do Caapi ao Carazinho



III - São Carlos do Caapi e Santa Tereza



Prosseguindo a História, no seu ritmo inexorável, deveriam surgir novos fatos que alterariam totalmente a paisagem melancólica existente até então.

Por interesses não completamente esclarecidos, talvez políticos, talvez religiosos, alguém resolveu que a terra deveria ser conquistada e o comportamento do indígena deveria ser modificado.

O segundo Governador do Rio da Prata, Hernando Arias de Saavedra, com a aprovação do Rei Felipe II da Espanha, concluiu que a catequese religiosa seria um meio superior à força para a conquista do território.

Em 1608 chegaram ao Paraguai os primeiros jesuítas, fundadores das Missões da Companhia de Jesus no Paraguai. Foram os precursores de um movimento iniciado pelo Padre Manoel da Nóbrega em 1549 e que duraria até 1660.

Era o início da assimilação de uma cultura, da distorção de padrões e que cortaria abruptamente as expectativas dos povos indígenas, que até então regiam-se pelas suas tradições, pelos seus deuses e que mantinham durante séculos a sua tradição.

De acordo com Moysés Vellinho, no seu livro "Capitania d'El-Rey" editado pela Editora Globo em 1964, tudo leva a supor que a Companhia de Jesus chegou a alimentar com tenacidade o propósito de construir no âmago do Novo Mundo, àquele tempo vazio e como que em disponibilidade, um império próprio, o seu império.

Nas alturas de 1626 é que os jesuítas espanhois, depois de destroçados em Guaíra pelos paulistas, aliás com a conivência das autoridades do Paraguai, se insinuaram na região pela primeira vez. Vinham em nome de Deus e dos reis de Castela, parecendo certo que vinham também em nome dos interesses temporais da Companhia de Jesus.

Cruzado o Uruguai, os padres espanhóis se internaram até a bacia do Jacuí, já em meio caminho da costa ambicionada.

Daí até a formação das reduções foi um passo. Essas serviriam de postos avançados, de sentinelas e de núcleos de expansão.

Em nosso território, ou onde era o município de Carazinho, antes do desmembramento dos demais novos municípios, surgiriam duas reduções: São Carlos do Caapi e Santa Tereza.

Muitas divergências existem sobre a localização dessas reduções. Conforme o Padre Carlos Tschauer, São Carlos foi fundada em 1631 e Santa Tereza em 1632.

Não existem vestígios conhecidos de nenhuma delas, com exceção de fortificações de pedra junto ao Passo do Rio da Várzea, nas proximidades de Pulador, onde antigamente havia uma capela, chamada de São João Pequeno. No livro do historiador passofundense "Passo Fundo das Missões", Cafruni, existem reproduções fotográficas desses muros de pedra.

Sabe-se, com certeza, que Santa Tereza, inicialmente estabelecida no Povinho Velho, adiante de Passo Fundo na direção de Lagoa Vermelha, e que não pode ser sustentada pela distância de outras bases e talvez pelo indígena encontrado lá, bastante diferente em sua cultura daquele com os quais os jesuítas estavam acostumados a trabalhar, posteriormente foi transferida para cá do Uruguai-pitã, ou Uruguai-Puitã, O Uruguai Vermelho, hoje Rio da Várzea.

O Padre Jager, Souza Doca, Moisés Vellinho e o próprio Cafruni que estudaram o povoamento do Continente de São Pedro, divergem quanto à localização, porém existe a concordância que foi nesta região que se instalou o posto mais avançado dos povos das Missões.

Com essa certeza podemos enquadrar o município de Carazinho no território das Missões, já que o Rio da Várzea foi o divisor e limitador que se estabeleceu.

Estudando os diversos argumentos apresentados nos inclinamos pelo seguinte:

Se São Carlos do Caapi foi fundada antes de Santa Tereza era mais lógico e racional que ficasse mais próxima de suas bases, ou seja em direção ao rio Uruguai. Portanto concordamos com Cafruni quando diz que São Carlos do Caapi foi fundada pelo Padre Romero, em princípios de 1931 e reconhecida em agosto do mesmo ano, nas terras dos famosos e valentes caciques Apicabigia e Jandaia. Teve por curas e auxiliares os Padres Pedro Mola, Felipe Viveros, Diogo Ferrer e Nicolau Inácio. Situava-se na região conhecida por Caapi, a oriente do Caacapá-guaçú. Ficava no divisor das águas e a caminho natural entre o Rio da Várzea e as nascentes do Jacuí-mirim, próximo das localidades de Cruzinha e Pinheiro Marcado, no atual município de Carazinho, distante um dia de Santa Tereza, conforme informação de Nicolau de Tedro.

Os índios que vinham formar a redução de Visitação também vieram para reduzir-se em São Carlos.

É de se notar que todos os argumentos que localizam São Carlos do Caapi em outros territórios são imprecisos, inclusive Jaeger em seu mapa, ao localizar São Carlos o faz com o título "localização imprecisa", mas mesmo assim estabelece o local à distância do rio Ijuí, na direção de Passo Fundo, e também antes da Redução de Santa Tereza.

Guilhermino César fala em San Carlos del Caápi, com situação no atual campo de Santo Cristo, ao norte de Santo Ângelo e ao norte do Ijuí Grande. Totalmente equivocado, principalmente pela localização do Caapi, região delimitada pelo indígena no Planalto e no topo da Coxilha Grande.

Estamos totalmente convencidos do argumento de Cafruni, baseado em dados muito mais verossímeis.

Também a localização dessa redução. vizinhança de Pinheiro Marcado, é dada por Souza Docca e outros autores, inclusive Jaeger, como sendo Santa Tereza, confundindo as nascentes do rio Jacuí com, as do Jacuí-mirim, ou Jacuizinho.

Por sua vez Santa Tereza foi fundada depois da visita do Superior Padre Romero e do Padre Pedro Mola, em fins de 1632, em terras do cacique Guaraé, que mandou buscar os jesuítas após a tentativa malograda de estabelecê-la no Povinho Velho, adiante de Passo Fundo, na direção de Lagoa Vermelha.

Sua localização definitiva foi procedida pelo jesuíta Francisco Ximenes, que se tornou seu verdadeiro fundador em 1633. Situava-se conforme Olyntho Sanmartin ao norte do Alto-Várzea, próximo à localidade de Bela Vista, antigo município de Passo Fundo. Possivelmente no chamado Rincão do Pessegueiro.

O Padre Ximenes foi cura dessa redução, tendo por companheiros os Padres Simão Macete e João de Sales.

De acordo com o Padre Jaeger, a tradição oral afirmava que na redução de Santa Tereza existiam reduzidas cerca de mil famílias indígenas. Nessa também chamada Santa Tereza dos Ervaçais e Pinheirais, viviam cerca de 8.000 pessoas organizadas em povoado, reduzidas, termo originário do espanhol que dizia "reducir-se a la Cruz e la Campana" ou equivalente em português: aldear-se.

No mesmo local, ainda de acordo com a tradição havia uma escola freqüentada por 600 crianças.

Nas reduções em geral os indígenas passavam a viver em casas individuais, ao contrário dos grandes barracões com 200 ou 300 pessoas onde viviam anteriormente. No início em casas de madeira, cobertas de palha. Mais tarde de adobe, taipa ou pilão, sendo estas últimas socadas de argila entre duas guarnições, que depois eram retiradas. Assim a parede ficava quase tão forte como de pedra.

Na escola os meninos aprendiam a ler, escrever e contar. Alguns adquiriam tal perícia na caligrafia que chegavam a copiar livros inteiros, seja na língua nativa com em espanhol ou em latim, com a perfeição de caracteres tipográficos.

Os que não freqüentavam a escola aprendiam ofício, iam capinar na lavoura ou apanhar frutas. As meninas apanhavam algodão ou espantavam os papagaios da lavoura.

Para o trabalho dirigiam-se em procissão com a estátua de Santo Isidoro, acompanhados de músicos que tocavam flautas.

Porém essa paz não duraria muito. Dois perigos se avizinhavam. Os ataques do mamelucos e dos bandeirantes paulistas trariam o fim de Santa Tereza e de São Carlos do Caapi.

Os mamelucos, inicialmente instigados pelo Governador do Paraguai, Dom Luís Céspedes Xeria, passaram a atacar as reduções.

Além dos estragos materiais, procuraram os mamelucos destruir a confiança dos índios. Para isso espalharam o boato de que teriam aliança com os jesuítas. Esse fato trouxe à redução uma grande inquietação, tendo inclusive o índio Manuel Jaguacabucá tentado matar os missionários, persuadido que haviam chamado os mamelucos.

Em outra ocasião uma peste abate-se sobre a Redução de Santa Tereza, matando cerca de 900 de seus habitantes. Nessa ocasião os padres tentaram levar os sobreviventes para a Redução de Candelária, o que foi feito em parte.

Finalmente, para encerrar a história de Santa Tereza e de São Carlos, chegaram os bandeirantes paulistas.

Em 1636 chegou Antônio Raposo Tavares e posteriormente André Fernandes,

Raposo Tavares com 150 homens brancos armados de arcabuzes e cerca de 1.500 índios tupis foi o primeiro a atacar as reduções, deixando fama de grande maldade e capturando milhares de índios como escravos, os quais levou para São Paulo.

Nas vésperas do Natal de 1637, mais precisamente no dia 23 de dezembro, surge inesperadamente diante da Redução de Santa Tereza a bandeira de André Fernandes. Dois padres lá se encontravam, ocupados na doutrinação de cerca de 4.000 índios. Os recém-chegados não precisaram disparar seus arcabuzes, pois os habitantes, tomados de surpresa, não ofereceram resistência. E um fato curioso ocorreu logo após. Na manhã de 25 de dezembro, os paulistas dirigiram-se à Igreja, de velas na mão, para assistir às três missas celebradas pelo Padre Francisco Ximenes, que do púlpito "exprobou a injustiça e crueldade, com que eles tratavam os índios".

Diz Aurélio Porto: "Compreendeu o Cap. André Fernandes a importância estratégica da povoação. Não a destruiu, como dizem os jesuítas, mas organizou ali os seus quartéis de inverno, plantou roças ergueu paliçadas e a ocupou definitivamente".

Outras versões dão a Redução de Santa Tereza destruída pelos bandeirantes, tendo os mesmos construído nas proximidades o acampamento que lhes serviria de base.

Tem-se como certo porém que a administração do forte foi confiada a um filho de André Fernandes, o qual nascido no Paraguai tinha se ordenado padre. O seu nome era Francisco Fernandes de Oliveira.

Com base nessa fortificação iniciou-se o ataque às outras. Tendo Jerônimo Bueno como comandante arrasaram-se várias reduções, entre elas São Carlos do Caapi.

Só nos primeiros meses de 1639 começaram a regressar a São Paulo os integrantes dessa bandeira. Consta que o forte estabelecido em Santa Tereza permaneceu por aproximadamente 30 anos.

Encerrava-se uma nova etapa. o indígena, o jesuíta e agora o bandeirante, Deveria seguir-se um período muito grande de silêncio neste território.