Do Caapi ao Carazinho



XIV - A emancipação



Iniciando a década de 1930 avolumavam-se os movimentos emancipacionistas. O espírito de luta criado com a Revolução trazia novos ânimos às pessoas. O progresso que se fazia sentir em nossa região, apesar da conjuntura internacional, que se sentia negativa, avolumava as vozes em favor da autonomia administrativa.

O "Jornal da Serra", de propriedade de Canuto de Souza e dirigido pelo mesmo, constantemente publica notícias relacionadas com o movimento. Em sua edição de 11 de dezembro de 1930, sob o título "O Vilamento de Carazinho", faz um minucioso relato das providências tomadas pela comunidade visando à emancipação. Permitimo-nos abreviá-lo e acrescentar alguns comentários:

"Os Srs. Dr. Homero Guerra e Paulo Coutinho, reunidos na casa do ultimo, acordaram que o movimento em prol da emancipação deveria ser reativado. Instituíram um plano de ação que consistiria na elaboração de um bem detalhado memorial, onde se provasse insofismavelmente as possibilidades econômicas do novo município e também uma consulta à população territorial.

Procurado pelo Sr. Paulo Coutinho o Coronel Alberto Graeff concordou com o movimento, associando-se ao mesmo."

Era o princípio de um movimento realmente efetivo e que reunia três líderes: Paulo Coutinho, Coletor Federal e pessoa que exerceu liderança em todas as atividades comunitárias, sendo, segundo nossa opinião, o expoente da emancipação de Carazinho. Também o Dr. Homero Guerra, jovem idealista, que viria a ser o 1º Prefeito Municipal, assim como o Coronel Alberto Graeff, líder político respeitado.

Após esses entendimentos foi convocada uma reunião de pessoas de maior destaque na localidade, organizando-se uma Comissão Diretora que ficou constituída das seguintes pessoas: Alberto Graeff, Guilherme Sudbrack, Dr. Homero Guerra, Paulo Coutinho, Otávio Rocha, Dr. Eurico Araújo, Dr. Max Gauthier, Padre João Sorg, Boaventura Subtil, Afonso Gotlieb, Carlos D. Iserhard, Eduardo Graeff, Waldemar Graeff, Boleslau Minsky, Alberico Azevedo, Theodoro Figueiredo, Joaquim Mendes, Ivalino Brum, Pedro Sturm, Antônio José Pereira Júnior, Osório Meirer, Platão Mota e José Weissheimer Sobrinho.

Desta comissão foram encarregados de elaborar o memorial os Srs. Dr. Homero Guerra, Paulo Coutinho, Ivalino Brum e Otávio Rocha.

Iniciou-se ao mesmo tempo a consulta ao eleitorado, tendo seguido para os Distritos diversas comissões.

Durante esse trabalho a Revolução de 1930 veio sustar em parte a execução do plano traçado. Vitorioso o movimento e reanimado pela palavra do General Flores da Cunha, que em vibrante oração proferida no Barracão Liberal, junto à Estação da Viação Férrea, por ocasião de sua passagem em direção ao norte, o qual prometeu a emancipação do então distrito, continuaram na linha traçada.

Um fato importante a ser citado: em virtude de algumas dúvidas e divergências surgidas foi efetuada uma consulta ao Chefe do Partido Republicano, Dr. Borges de Medeiros. Para isso seguiram a Irapuá, onde se encontrava o velho caudilho, os Srs. Homero Guerra e Paulo Coutinho. Recebidos cavalheirescamente, mostraram ao mesmo o memorial que seria dirigido ao Interventor do Estado, receberam todo o apoio e foram aconselhados a seguir o mais rápido possível para a Capital do Estado.

Com isso conseguiu-se o apoio total do eleitorado e os trabalhos foram intensificados. Estava vencida a primeira etapa.

Reuniu-se a Comissão para a escolha dos que deveriam ir à Capital pleitear junto ao Interventor a concretização da maior aspiração local. A escolha recaiu nos Srs. Alberto Graeff, Guilherme Sudbrack, Dr. Homero Guerra, Salustiano de Pádua, Paulo Coutinho, Dr. Eurico Araújo e Alberico Azevedo.

Seria a etapa mais importante e difícil, porém a população confiava em que seria atendida.

Segundo as palavras de Canuto de Souza:

"Carazinho, mercê do labor hercúleo de seus operosos habitantes, é um dos núcleos mais prósperos e um dos mais sólidos esteios da economia do Estado. Atingiu o ponto culminante de sua evolução, impondo-se como uma decorrência lógica do seu progresso e da sua riqueza, sua autonomia administrativa, pois as coletividades, como os indivíduos, atingida a sua maior idade e demonstrada a sua capacidade de prover a própria existência, têm direito à carta de alforria".

Chegando a Porto Alegre, a Comissão pró-vilamento foi recebida pelo Chefe do Governo, Interventor, General Flores da Cunha.

Com franqueza que lhe era peculiar, declarou à Comissão que tinha um compromisso de honra com o povo de Carazinho e que não fugiria ao cumprimento do mesmo. Acrescentou que Carazinho tinha direito à emancipação, estranhando que ainda não lhe tivessem dado. Prometeu que, preenchidas as formalidades indispensáveis, decretaria a criação do município.

No mesmo dia o memorial foi encaminhado à Secretaria do Interior, para que fosse dado parecer, o qual foi imediatamente favorável.

No dia seguinte voltou a Comissão ao Palácio pleitear a vinda para Carazinho do 3º R. C. da Brigada Militar, pedido que foi bem acolhido.

Deveria ainda ser ouvido o Prefeito de Passo Fundo para acertar os limites territoriais e principalmente os problemas referentes à divida pública.

Com data de 16 de dezembro de 1930 foi expedido um telegrama nos seguintes termos:

"Comissão conferenciou hontem Interventor. Ficou assentado creação município. Memorial encaminhado Secretaria Interior afim ser dado parecer. Gal. Flores declarou ter compromisso moral Carazinho, achando que emancipação já devia ter sido feita. Paulo".

Este telegrama, afixado em um local em frente da "Gruta Gaúcha", café existente na rua do Comércio, atraiu muitas pessoas e foi saudado com muitos foguetes.

No dia 15 de janeiro de 1931, ou seja cerca de um mês após, foi chamada com urgência à Capital a Comissão pró-vilamento. Foi então efetuada uma reunião no Clube Comercial para se inteirar dos motivos, que eram os limites territoriais do novo município.

Foi resolvido que iriam imediatamente à Porto Alegre os Srs. Dr. Homero Guerra, Paulo Coutinho, Cel. Alberto Graeff e Cel. Guilherme Sudbrack, para pleitear, com todos os poderes, a manutenção dois limites iniciais (ou seja a emancipação dos 4º, 7º, 8º, 9º, 12º e 13º Distritos de Passo Fundo). Também foi acertado que a Comissão poderia transigir em pequenos detalhes, mas não poderia abrir mão de nenhum dos Distritos acima.

Havia oposição do Dr. Nicolau Araújo Vergueiro, chefe do Partido Republicano em Passo Fundo, quanto à inclusão de Não-Me-Toque. Também estaria incluída nesta pretensão a localidade de Tapera, pois em ambas estaria grande força eleitoral do Dr. Vergueiro.

Dividia-se então a população. Muitos boatos surgiram. Alguns não acreditando na emancipação e outros apostando na mesma.

Em Não-Me-Toque reuniu-se a Liga Colonial e resolveu levar ao conhecimento do Governo do Estado que 95% de seus associados eram favoráveis à emancipação.

De Tapera foi enviado um telegrama que manifestava o desejo de ser emancipada com Carazinho e protestando contra sua pretendida exclusão.

Em resposta, o General Flores da Cunha afirma que a emancipação se faria com absoluta justiça.

No dia 18 de janeiro foi recebido pelo Jornal da Serra um telegrama do seguinte teor:

"Conferência tivemos hoje Interventor resolveu creação município divisas pleiteadas inclusive Não Me Toque. Viva o município de Carazinho. Seguimos amanhã. A Comissão".

Como se disse então: "foram queimadas muitas dúzias de dinamites em diferentes pontos do povoado".

No dia 21 de janeiro regressou a Comissão que obtivera todo o sucesso possível na sua missão.

A Estação da Viação Férrea encheu-se de pessoas que queriam dar vivas aos que regressavam. recebidos com muita alegria foram os membros da Comissão levados em triunfo ao Clube Comercial, onde lhes foi servido um "chopp" ao melhor estilo da época.

A saudação oficial esteve a cargo de Ivalino Brum, orador fluente que cheio de vibração traduziu o júbilo cívico do povo.

Foi então narrada a dificuldade encontrada no primeiro contato com o Governo, já que deveria ser excluído o Distrito de Não Me Toque. Porém após ouvir novamente o Sr. Henrique S. Ghezzi, Prefeito de Passo Fundo, em uma segunda audiência, o General Flores da Cunha concordou com todos os itens apresentados.

Quanto á divida ficou acertado que o novo município tomaria a cobrança da dívida ativa dos distritos que se desmembrariam, no valor aproximado de 138 contos, e o que fosse arrecadado entregaria a Passo Fundo. Portanto seria criado o município de Carazinho sem ônus de qualquer espécie.

No dia 24 de janeiro de 1931 foi expedido o seguinte decreto:

"Decreto nº 1707

O Interventor federal no Rio Grande do Sul, na conformidade do artigo 20, nº 15, da Constituição e art. 1 do decreto 4311, de 15 de maio de 1929:

Considerando ser aspiração coletiva e elevação à categoria de município do território constituído pelos actuaes 4º, parte dos 6º, 7º, 8º, 9º, 12º e 13º districtos de Passo Fundo; Considerando que o referido território, com uma população de cerca de trinta e nove mil habitantes, tem comércio e indústrias bastante desenvolvidos, pois em 1929 contribuiu para os cofres municipais com renda superior a 250.000$000; Considerando que seu desmembramento não será muito sensível ao município de que faz parte, o qual ficará com as rendas mais que sufficientes para prover as exigências de sua vida autônoma;
Decreta:

Art. 1º - Fica elevado à categoria de município, com a denominação de Carasinho e sede no povoado do mesmo nome, o território dos actuaes 4º, parte do 6º, 7º, 8º, 9º, 12º e 13º districtos de Passo Fundo.

Art. 2º - O novo município limitará ao norte com o de Passo Fundo pelo Rio Turvo, desde a sua afluência com o rio da Várzea, até a barra do Rio Bonito e por este até as suas nascentes, a leste, pela sombra do matto e pelas actuaes divisas do 4º e 7º districtos até o rio Jacuhy; ao sul com o município de Soledade, pelo rio Jacuhy; a oeste, com Cruz alta e Palmeira pelas actuaes divisas destes municípios com o de Passo Fundo.

Art. 3º - Enquanto permanecer a situação instituída pelo decreto federal nº 19.398, de 11 de novembro de 1930, serão observadas no novo município a lei orgânica do de Passo Fundo, e bem assim, a lei de orçamento para o corrente exercício no que for aplicável.

Art. 4º - O município de Passo Fundo transferirá ao de Carasinho a sua dívida activa correspondente aos contribuintes do território desmembrado, bem como os próprios municipais porventura nelle existentes.

Art. 5º - O município de Carasinho pagará ao de Passo Fundo, pela forma que entre si combinarem, a quota que lhe corresponder proporcionalmente à somma dos impostos a que a respectiva população está sujeita, na dívida passiva que houver contrahido por último até esta data.

Art. 6º - O novo município será termo da Comarca de Passo Fundo.

Palácio do Governo, em 24 de janeiro de 1931.

José Antônio Flores da Cunha. Sinval Saldanha"