A Revolução de outubro de 1930 encontrou Carazinho voltada para o movimento de
emancipação. E, enquanto durou, desviou as atenções para os fatos decisivos que
movimentavam todo o território nacional.
Insurgindo-se com um estado de coisas que persistia apesar de todas as tentativas para
modificá-lo, todo o Brasil, liderado pelo Rio Grande do Sul, veria a alteração completa
do sistema político nacional em muito pouco tempo.
A Aliança Liberal formada propunha-se a sanear o regime e a moralizar a República.
Carazinho integrou-se completamente no movimento. Houve intensa vibração cívica na
colméia de trabalho que era o já pujante povoado.
Como ponto de parada dos trens que se dirigiam às linhas de frente do combate, logo ao
início surgiu um movimento espontâneo que ficaria para sempre na lembrança daqueles que
tiveram participação no mesmo: o Barracão Liberal.
No início pequeno, mas sempre espontâneo, avolumou-se atingindo repercussão
extraordinária.
Começou quando um pequeno grupo de pessoas da sociedade local postou-se na estação da
Viação Férrea, onde distribuía cigarros, fósforos, café, pão, biscoitos, frutas,
etc., aos soldados que partiam para o Norte.
Liderados pelo então padre, após Cônego, João Sorg, as jovens faziam distribuição de
distintivos, santinhos e imagens sacras como auxílio aos revolucionários que passavam.
Logo passaram a ter o auxílio do povo, que postava-se na estação para aplaudir e
observar o que se passava.
Do quarto trem em diante começou a funcionar efetivamente o Barracão Liberal, organizado
por elementos do comércio e indústria. Desde logo observou-se um apoio muito grande pelo
interior, pelos colonos, que enviavam grandes quantidades de mantimentos para a
distribuição.
Observe-se que em cada trem existiam 1.500 ou mais soldados, tornando-se a alimentação
de todos um compromisso muito grande, que foi assumido com toda a espontaneidade.
Citavam-se como colaboradores principalmente Não-Me-Toque, Tapera, Lagoa dos Três
Cantos, Cochinho, Selbach, Sarandi, Tamandaré, Dona Júlia, São Bento, Bom Sucesso, Boa
Esperança, Passo Espumoso, tesouras, Ernestina, Arroio Bonito, Chapada, Coqueiros, Vista
Alegre e São José.
Note-se portanto que não era um movimento local, mas regional, com liderança da
população da vila.
O Barracão Liberal nasceu com a compreensão de todos de que o movimento era decisivo
para todo o país. Todos os que por aqui passaram, e os cálculos são variados, de 30.000
a 50.000 homens, foram acolhidos e tiveram um período de conforto.
Concomitantemente formava-se a "Legião Prestes Guimarães" que deveria seguir
para a frente de luta. O seu comando era de Salustiano de Pádua, veterano de 1893 e 1823,
e era integrada por pessoas de todas as camadas sociais de Carazinho.
Compunha-se a Legião de 321 homens e encontrava-se em prontidão para o embarque quando
foi anunciada a queda do Presidente Washington Luís. Foi em seguida efetuada a sua
desmobilização.
Nessa ocasião o Cel. Salustiano de Pádua recebeu o seguinte telegrama:
"Cel. Salustiano de Pádua. Carazinho nº 2206. Tendo cessado necessidade remessa
tropas estavam sendo mobilizadas, Governo Estado determina licenciamento vosso Corpo, afim
patriotas o constituem voltarem suas ocupações normalizando vida Estado. Vosso Corpo
considerado efetivo 321 homens assim discriminados: 1 Tte-Cel. Comandante, 1 Major Fiscal,
1 Cap. Ajudante, 1 Cap. Médico, 4 cap. Comandantes Esquadrões, 4 Primeiros Tenentes, 10
segundos Tenentes e 299 praças. Foi resolvido Corpos desmobilizados percebam
gratificações correspondentes todo período estiveram em serviço: Tte. Cel. 800$000,
Major 600$000, Capitães 500$000, 1ºs Tenentes 400$000, 2ºs Tenentes 350$000, praças em
geral 50$000 cada uma. Convém mandeis preparar folhas nominais para respectivo pagamento
consignando nelas efetivo Corpo acordo discriminação acima. Folhas serão enviadas esta
Brigada, afim de serem processadas assistência material. entretanto vou procurar
conseguir hoje importância necessária pagamento gratificação acima para vos passar
intermédio Banco afim de fazerdes pagamento pessoal momento licenciamento. Despesas
feitas mobilização, alimentação pessoal serão pagas mediante contas duas vias
devidamente atestadas, apresentareis esta Brigada. Seria conveniente nessa ocasião
viésseis esta Capital para o que vos fornecerei passagem. Ao transmitir-vos ordem
Governo, determinando desmobilização vossos elementos, agradeço-vos seu nome, no meu
aos vossos correligionários, nossos bravos companheiros cruzada inestimáveis serviços
prestados acorrendo pressurosos vosso chamado para defesa grande causa nacional. A vós,
em particular, tenho prazer em felicitar pela criteriosa conduta observada na
organização do Corpo sobre vosso comando, demonstrando desse modo intuito patriótico
que vos dominou nessa excepcional emergência conforme teve ocasião de observar o Coronel
Canabarro Cunha quando em sua excursão ao Norte do Estado. Saudações Coronel
Claudino".
O Telegrama acima encheu de orgulho os responsáveis pela organização da Legião Prestes
Guimarães.
Como oficiais tomaram parte da mesma, entre outros, Nelson Sambaqui, Nilo Sudbrack, Pedro
A. Stürmer, Olof Sudbrack, Adão Barcelos, Guilherme Becon, Mário Motta, Canderoy Pinto
Lima, Emílio Bublitz, Ivalino Brum, Guilherme Schultz Jr. e Antônio L. Albuquerque.
O Estado Maior era composto pelo Cel. Salustiano de Pádua, Comandante Major Laudelino D.
Garcez, Fiscal e Capitão Médico Dr. Eurico Araújo.
A ata de encerramento constante do Boletim nº 2 da Corporação tinha os seguintes
termos:
"De conformidade com o telegrama acima transcrito, encerram-se os serviços de
organização desta Legião e a sua vida ativa. Este comando rejubila-se com os camaradas,
pelas palavras confortadoras de que se compõe aquele despacho do distinto Comandante da
Brigada Militar. Elas representam para nós outros o maior prêmio que se poderia desejar
pela nossa atitude desassombrada e patriótica, e para terminar queremos lembrar aos
camaradas da Legião "Prestes Guimarães", que devem ter sempre em mente aquela
síntese admirável e verdadeira em que resumiu os destinos da Pátria o eminente
Presidente da República Dr. Getulio Dornelles Vargas: A violência gera a violência, só
o amor constrói para a eternidade.
Quartel em Carazinho, 24 de outubro de 1930. (a) Salustiano de Pádua, Cel. Comandante,
Laudelino Garcez, Major Fiscal".
Eram portanto dois os movimentos surgidos. O civil com o Barracão Liberal e o militar com
a Legião Prestes Guimarães.
Paralelamente, organizado pelo general João Rodrigues Menna Barreto, já com bastante
idade na época, a "Brigada Farroupilha" que era constituída na sua maioria de
elementos locais, mas que tinha sua sede na cidade de Passo Fundo, onde foi licenciada.
Episódio importantíssimo pelo valor que teria nos destinos de Carazinho foi a passagem
pela Estação da Viação Férrea local do trem que conduzia os líderes da Revolução.
Transcrevemos trecho de artigo escrito por Vargas Neto em edição especial da Revista do
Globo, comemorativa da vitória na Revolução e que tem por título: "De Porto
Alegre ao Rio de Janeiro com o Sr. Getúlio Vargas".
"Em Carasinho as famílias organizaram, a expensas próprias, uma grande tenda, que
denominaram Barracão Liberal. Ai serviram doces, café, sanduíches aos soldados que
passavam.
Fomos recebidos com uma enorme mesa de doces, chá, café, bebidas. Tudo o que se
quizesse. Houve oradores de ambos os sexos e várias ofertas á comitiva, inclusive uma
grande bandeira vermelha, bordada por uma senhora do lugar.
Agradecendo a festa falou, por ordem do Presidente, o Dr. Gabriel Pedro Moacyr. Em seguida
devido aos reclamos da multidão, teve de usar da palavra o Gal. Flores da Cunha.
Em meio da festa desabou uma chuva torrencial, mas ninguém se retirou, nem mesmo senhoras
e senhoritas, que continuaram obsequiando os que marchavam".
Foi nessa ocasião que Flores da Cunha fez a promessa de emancipar Carazinho, tão logo a
Revolução fosse vitoriosa.
A bandeira referida era provavelmente uma bandeira da Paraíba, que na ocasião tinha
grande significado. Essa bandeira se encontrava no quartel da Legião Prestes Guimarães e
teve uma entrega festiva.
Em todos os setores da localidade se observava uma agitação fora do comum. O telégrafo,
a cargo do Sr. Rosauro B. Costa, funcionava quase ininterruptamente. De acordo com
estatística feita, durante o período revolucionário a Agência local recebeu 34.000
palavras e emitiu 14.000 o que foi considerado um serviço volumoso.
As Irmãs do Colégio Nenê Dilemburg Sassi, hoje Nossa Senhora Aparecida, colocaram as
suas instalações à disposição para a confecção de uniformes para a tropa.
E a participação de maior importância foi dada pelos carazinhenses que se incorporaram
aos batalhões que por aqui passavam, na pressa de se integrarem às fileiras de combate.
Devemos citar o Dr. Miguel Kosma, médico aqui residente que se incorporou à coluna do
general Miguel Costa. Com o General João Francisco seguiram o 1º tenente Francisco Leon
e Moysés Marcondes.
Com o 8º R. R. de Passo Fundo seguiram três filhos de João Solano, Jacques Loss,
Erverardo Andrade, Cyrio Borges, Evaldo Silva, Edgar Wagner, Abybs Mansur, 4 filhos do
Major Otávio A. da Rocha, coletor estadual, entre outros.
Exemplo extraordinário foi dado pelo Padre João Sorg, pároco de Nosso Senhor Bom Jesus,
que conseguiu incorporar-se ao hospital Dr. Paulino Barcellos, seguindo até a cidade de
Ponta Grossa, no Paraná, de onde regressou cessada a luta.
Engajava-se assim toda a coletividade no movimento, de uma ou de outra maneira.
Com a vitória alcançada, entre outras manifestações de júbilo foi rezado, em 1º de
novembro, um Te Deum em ação de graças pela vitória, na Igreja Matriz.
Logo após realizou-se um comício, no qual usaram a palavra, entre outros, Antônio
Loures e Albuquerque e Rosauro Costa. Alunos do Grupo Escolar recitaram versos
comemorativos, além de terem sido aclamados os principais líderes revolucionários.
No dia 15 de novembro foi realizada grande comemoração popular, para confraternização
dos elementos que trabalharam no Barracão Liberal. Foram abatidas 15 rezes para o
churrasco histórico.
Nos dias que se sucederam ao término da Revolução seguiram-se acontecimentos que
tiveram influência marcante no episódio que viria logo a seguir.
Tendo chegado a Carazinho uma comissão da Brigada Militar, chefiada pelo Major Marcelino
Rodrigues da Silva, com o objetivo de receber da Legião Prestes Guimarães material que
não foi utilizado e o dinheiro restante, foi oferecida aos mesmos pelo comando da Legião
uma refeição no Salão do Hotel Rosa. Usou da palavra, oferecendo a homenagem, Antônio
Loures de Albuquerque e também Rosauro da Costa, encarregado do telégrafo; Paulo
Coutinho, coletor federal; Padre João Sorg, Vigário da Paróquia; Dr. Euclides Dania,
médico; Lucas Rodrigues, tenente da Legião assim como Garibalde Batello, madeireiro.
Em nome do Major Marcelino falou o tenente Tisiani F. Leoni.
Todos salientaram o ideal de autonomia de Carazinho, tendo os visitantes se mostrado
vivamente impressionados pelo progresso encontrado.
O resultado seria um telegrama enviado pelo Major Marcelino Rodrigues da Silva ao General
Flores da Cunham em favor do vilamento de Carazinho.
Tinha o seguinte teor:
"General Flores da Cunha. Palácio do Catete. Rio de Janeiro. - Saudações cordiais.
- Lembro vossa promessa, que nunca falhou feita povo carazinhense por ocasião vossa
passagem aqui foi o de elevar Carazinho à categoria de vila, porque só assim
reompensamos esse digno povo que com tanto carinho tratou soldados que por aqui passaram
direção campo da honra. Por isso peço vossa valiosa interferência junto Governo Estado
para que essa dívida seja paga com a máxima brevidade. Este pedido é feito pelo vosso
sincero amigo que por aqui se acha a serviço. (a) Major Marcellino".
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