Incluímos essas considerações sobre comunicações em nosso trabalho para darmos uma
idéia do que era viver em um território que se isolava totalmente da Capital e do
litoral durante o inverno, ou seja de abril até outubro, pela completa
instransitabilidade dos caminhos existentes.
A viagem a cavalo, em ritmo apressado se fazia em 7 dias. Porém se alguém levava seus
familiares ou mercadorias em carretas, o trajeto à Capital do Estado não se fazia em
menos de 30 dias.
A noção que hoje temos de tempo é totalmente diferente daquela que tinham os nossos
antepassados. Se hoje o ritmo de trabalho é rápido e sem intervalos, no passado ele era
bastante lento e com pausas. Mesmo que o homem do século passado trabalhasse mais horas
isso não influía no seu conceito de tempo. E principalmente no interior desse nosso
Continente de São Pedro.
Ao findar o século XIX, aos alvores do século XX, muitos motivos surgiriam para que o
homem de nossa campanha e de nossa serra modificasse a sua maneira de pensar e de viver.
Principalmente as novas comunicações que surgiam e que trariam instantaneamente o Mundo
para dentro das casas de todos.
E como começou isso em Carazinho?
Da carreta que trazia o comerciante, o mascate e sempre as novidades; e do cavalo que
trazia os viajantes, sempre cheios de histórias, ao telégrafo foi um passo descomunal.
Das notícias que chegavam pelos jornais da Capital, muitas vezes com meses de atraso,
seja "A Reforma" do Partido Liberal ou o "Conservador" do Partido do
mesmo nome, "A Federação" do Partido Republicano e mais alguns em língua
alemã, se passaria em um momento a ter instantaneamente conhecimento dos fatos políticos
e outros de importância.
Autorizada a construção da linha telegráfica de Cruz Alta a Passo Fundo pela lei
provincial nº 862 de 8 de abril de 1873, somente mais tarde foi construída, tendo
chegado ao povoado de Carazinho em 1889. Em seguida, mais precisamente no dia 16 de
novembro do mesmo ano, à tarde, foi veiculada pelo telégrafo a notícia da proclamação
da República. Estava a linha pronta até Lassance Cunha (entre Carazinho e Passo Fundo).
Dali até a sede do município foi levada a notícia por pessoa a cavalo.
Essa linha telegráfica foi construída por comissão chefiada pelo então major, mais
tarde marechal, Bento Ribeiro Carneiro Monteiro.
Com a Revolução Federalista de 1893, que se prolongar até 1895, foi a linha totalmente
destruída, vindo a ser restaurada logo após a pacificação em 23 de agosto de 1895.
Tendo sido iniciados os trabalhos de instalação da linha de Estrada de Ferro em 1890,
nesse ano chegou a Passo Fundo a comissão de estudos definitivos do traçado.
Inicialmente com concessão ao Dr. João Teixeira Soares e após muitas alterações e
transferências de contrato, o trecho Santa Maria a Cruz Alta ficaria a cargo da
"Compagnie des Chemins de Fer Sud Ouest Bresiliens", e o trecho Cruz Alta a
Itararé a cargo da "Companhia União Industrial dos Estados do Brasil", com o
projeto do Engenheiro João Teixeira Soares e com a chefia da Comissão de Construção do
Dr. Marcelino Ramos da Silva.
Como resultado da exploração feita no então território passofundense o Dr. Marcelino
Ramos deu à administração de Passo Fundo uma planta do município, trabalho que serviu
de estudos a muitas pessoas de diferentes épocas.
Apesar da revolução de 1893, a linha foi iniciada em Santa Maria, atingindo Cruz Alta em
20 de novembro de 1894.
Cessada a revolução foi mais fácil o prosseguimento da construção, que atingiu em 31
de maio a localidade de Pinheiro Marcado e finalmente, em 15 de novembro do mesmo ano
(1897), Carazinho.
Prosseguindo os trabalhos a turma construtora chegou em Passo Fundo em 08 de fevereiro de
1898.
Foi empreiteira da construção uma empresa de que eram componentes Antônio Alves Ramos,
português; Mr. King, inglês; e Constantino Gomez, espanhol. Muitos estrangeiros
trabalharam na obra, como austríacos, italianos e portugueses.
Uma vez por semana um trem misto saisde Passo Fundo às 7,30 horas da manhã, chegando à
Cruz Alta às 4,40 da tarde, com ponto de almoço em Pinheiro Marcado.
Posteriormente esse critério foi alterado para dois, para três e finalmente, em 1909,
diariamente com exceção dos domingos. No início o movimento era tão pequeno que um só
vagão, dividido ao meio, bastava com folga para as duas classes.
Arrendada pelo Governo Federal, a rede da Viação Férrea do Rio Grande do Sul à
Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer de Bresil encontrou finalmente o seu extremo,
Marcelino Ramos, em 25 de outubro de 1910.
Outro aspecto que queremos salientar, e onde Carazinho foi pioneiro, é o primeiro ramal
telefônico.
Em 1897 a empresa colonizadora do Alto Jacuí, constituída por Alberto Schmitt e Dr.
Fernando Oppitz, estabeleceu a linha de serviço entre Carazinho e Não-Me-Toque, onde se
encontrava o escritório e sede da colonização. Somente em 1906, ou seja 9 anos após,
foi iniciada a instalação de telefones em Passo Fundo.
Conforme registros existentes, a primeira linha telefônica de Carazinho foi instalada em
1913, tendo sido inaugurado o Centro Telefônico em 3 de novembro de 1913. Existiam então
26 aparelhos em Carazinho. A taxa de instalação era de 50 mil réis em Passo Fundo e 70
mil réis em Carazinho. Posteriormente deveriam ser pagos 10 mil réis por mês.
Um fato bastante pitoresco ocorreu em épocas mais recentes e deve ser acrescentado.
Ocorreu em dezembro de 1920.
Conforme o historiador passofundense Antonino Xavier, em capítulo intitulado: "As
memórias do velho umbu":
"Ao alto da coxilha, à margem direita do Pinheiro Torto, na estrada de Passo Fundo
à Carazinho, decorre que lá, em dezembro de 1920, se ouvira o barulho estranho de alguma
coisa que andasse pelo ar; barulho esse que era do primeiro avião que sulcava esses ares,
traçando uma apoteose à inteligência humana, cujo vôo cada vez mais alto
remontava".
Essa descrição feita em 1927 refere-se ao primeiro avião que passava sobre estas
paragens, pilotado pelo aviador argentino Eduardo Manoel Hearne, de Buenos Aires. O
aparelho era um biplano tipo S.V.A. de 220 H.P. e tinha o prefixo H945. Tendo iniciado
vôo em Buenos Aires seguia com destino à capital brasileira, trazendo uma mensagem de
Irigoien, Presidente argentino à Epitácio Pessoa, na época presidente do Brasil.
Esse avião desceu em Passo Fundo para reabastecimento, onde sofreu acidente, tendo sido
consertado. Posteriormente seguiu em suas etapas, tendo interrompido a viagem por acidente
em Sorocaba, São Paulo.
Outra citação que deve ser feita no capítulo de comunicações é o surgimento da
imprensa escrita. No dia 01 de outubro de 1908 circulava o primeiro número do jornal
"O Carasinho", que tinha a direção do farmacêutico João Rosa Lopes e com a
gerência de Joaquim Mendes.
No ano seguinte assumiu a direção o Sr. Gregório Mendes, que passou a editar o jornal
semanalmente.
No seu segundo número "O Carasinho" anunciava um concurso de beleza, e nominava
cerca de 40 senhoritas da sociedade como candidatas ao título.
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