Em busca do computador invisível
Por Carlos Nepomuceno
Feche os olhos e imagine-se dirigindo seu carro à beira de uma praia deserta: vento, sol,
mar...
Agora, com o mesmo automóvel, cruze um vale cheio de árvores, montanhas e um céu muito
azul.
Por fim, guie em um deserto quente, muita areia e calor escaldante.
Conseguiu?
Em algum momento pensou no carro?
Cheguei a conclusão, aqui com meu mouse e teclado, depois de muito refletir, que ficar
invisível é o principal objetivo de qualquer tecnologia.
Quanto mais confortáveis nos sentimos, mas ela desaparece.
Podemos chamar esse momento sublime de ponto de equilíbrio com as máquinas, ou se quiser
ser pedante, invisibilidade tecnológica.
Na verdade, todos os usuários, de qualquer tecnologia, procuram chegar nessa meta e
preservá-la.
Lembro da época quando senti que o carro deixava de ser algo exterior ao meu corpo e
passava a ser uma extensão dele.
O freio, a embreagem o acelerador se incorporaram ao meu cérebro como uma extensão das
pernas e braços.
Um controle total nas ladeiras, quebra-molas, qualquer lugar - eis a harmonia.
Com o computador, a chegada nesse ponto de equilíbrio é muito mais complexa por vários
motivos:
O micro tem múltiplas possibilidades.
É mais instável, do ponto de vista, mecânico que um carro.
Tem uma parte lógica, softwares, que podem ser alterados pelo dono, algo ainda não
disponível em um automóvel.
É atacado constantemente por vírus, que desejam quebrar esta sintonia.
Estamos constantemente modificando os nossos objetivos e, para isso, tentamos de forma
contínua melhorar ou modificar a sua performance: implantamos novos programas, versões,
placas e periféricos.
Nesse processo, o que fazemos, na verdade, é ajustar um tripé complexo com as seguintes
variantes:
Escolher a ferramenta (software e hardware) que atendam os nosso interesses naquele
momento.
Conhecer os recursos para poder usá-los de forma adequada.
Ajeitá-los a gosto e optar pela nossa melhor forma de utilizá-los.
Quando conseguimos esse equilíbrio, vestimos a capa de invisibilidade no equipamento.
Ele deixa de existir e passa a ser parte integrante de nós.
Some a separação homem-máquina, que se integram para produzir.
Quando mudamos os nosso objetivos, modificamos algo no equipamento ou resolvemos mudar a
forma de operar iniciamos o ciclo à procura de nova harmonia.
Geralmente, esse momento, quando não planejado, é traumático.
Um usuário mais experiente só modifica o ponto de equilíbrio, através de um
planejamento, pelo controle que já adquiriu do ambiente.
Consegue também, através de backups e ferramentas, preservá-lo, mesmo que aconteçam
acidentes com o hardware ou software.
Um leigo geralmente é mais sujeito à ataques de fatores externos, perde o ponto diversas
vezes durante a jornada, até entender a importância de preservá-lo.
Saber preservar o ponto de equilíbrio faz parte da harmonia.
Assim, as máquinas, na verdade, nascem para ficar invisíveis e nos ajudar a chegar aos
nossos objetivos.
Imagine-se agora na mesma praia: sol, pneu furado, vento, bateria arriada, mar e cabeça
quente.
Agora, me diga, existe algo além do carro?
Publicado em 15/08/2002
Carlos Nepomuceno, mestre em ciência da
informação, é consultor e jornalista especializado em Internet com larga experiência
em projetos nesta área. Colabora com o caderno de Informática do Jornal da
Tarde de São Paulo todas as quintas e coordena a Pontonet, empresa
especializada em desenvolvimento de projetos para a Web.
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