Fronteiras
Por Mauro Nogueira de Oliveira


Com  Kurt Lewin aprendi  a importância da geografia em nossas vidas, ou seja, “comportamento e desenvolvimento (C) dependem do estado da pessoa (P) e seu meio (M) (inclui o meio físico, geográfico, cultural)  C = F (Função) (P,M). Nessa equação a pessoa (P) e seu meio (M) têm que ser considerados como variáveis mutuamente dependentes. Em outras palavras, para compreender ou prever o comportamento, a pessoa e seu meio devem ser considerados como uma constelação de fatores interdependentes. Denominamos a totalidade desses fatores de espaço de vida (EV) daquele indivíduo, e escrevemos C = F (P, M) = F (EV). Portanto, o espaço de vida inclui a pessoa e seu meio psicológico.” (Lewin, K. in Teoria de Campo em Ciência Social).

Esta afirmação me leva ao tempo de infância e adolescência.

Lembro que minha noção de mundo era obtida através de revistas e ouvindo o rádio. Morava em uma cidade de cinco mil habitantes e era muito difícil imaginar que Porto Alegre, capital do Estado, já tinha quase um milhão de habitantes e que São Paulo, na época, já tinha mais de três milhões de habitantes. Como seria isso possível? Jaguari já era tão grande, como poderia haver espaço para tanta gente? E olha que eu não era mal informado e já tinha meus doze anos de idade, portanto, já pensava. Mas só podia pensar com os dados aos quais eu tinha acesso; o resto era fantasia.

Considerando que tenho 57 anos, vivi em uma época em que não havia muitas dúvidas: os adultos nos ensinavam todas as suas certezas. Algumas dessas certezas nos diziam como agir, como ser, como fazer em relação ao mundo, em relação aos outros e em relação a nós mesmos. Definiam fronteiras rígidas que, na maioria das vezes, eram por eles significadas como expressão de amor.

Tais fronteiras serviram de motivação para tentar 'escapar' daquele ambiente controlador, fazendo com que saíssemos em busca de estudar em outra cidade, principalmente na capital, arrumar um emprego ou casar, ações que significavam ter mais liberdade, ampliar o espaço de vida, criar novos espaços geográficos e, conseqüentemente, novos espaços psicológicos.

Sair do ambiente controlador não significava, contudo, que as fronteiras deixassem existir. Ampliavam-se, não extinguiam-se, até porque já estavam internalizadas e precisávamos delas. Precisávamos porque estas fronteiras nos davam a sensação de pertença, nos situavam em um determinado espaço geográfico e permitiam que freqüentássemos os espaços sociais correspondentes. Significavam também que estávamos sendo cuidados. Se não satisfeitos, procurávamos rompê-las através de um "salto" social e/ou educacional/profissional.

Um dos aprendizados que aquele ambiente controlador nos trouxe foi o de que deveríamos ser mais amigos de nossos filhos do que nossos pais foram, o que, no entanto, terminou por nos levar a ser mais amigos do que pais de nossos filhos ao fazermos com que as fronteiras que nos serviram de catapultas, de obstáculos a serem superados e que nos ensinaram a fazer escolhas, começassem a deixar de cumprir estas funções. Compreendíamos que amigos não colocam fronteiras, amigos apóiam, amigos estimulam e amigos mais velhos protegem.
 
De maneira alguma quero cometer o pecado da generalização, pois há pais que, mesmo correndo o risco de serem “caretas”, não deixaram de estabelecer as fronteiras saudáveis, protetoras e, ao mesmo tempo, estimuladoras. Refiro-me àqueles outros pais que no afã de serem amigos esqueceram de definir tais fronteiras.
 
O momento mundial é de queda de fronteiras geográficas e um volume de informação impossível de ser processado por uma pessoa. A noção de mundo mudando, os mercados se tornando 'Comuns', o dinheiro começando a ser 'Comum', a China caminhando em direção a um livre mercado.
 
Este momento de movimentação de fronteiras rígidas para fronteiras difusas faz com que os limites nas relações também fiquem difusos. Tenho a impressão de que todos estamos pedindo limites.

Por tudo isso, consigo entender a violenta agressão que sofreu a empregada doméstica no Rio de Janeiro, por parte de cinco jovens "bem educados", membros de "boas famílias", filhos de pais muito "bem intencionados", morando em espaços geográficos "privilegiados", ou seja, tudo contribuindo para que a agressão não acontecesse, pois em nosso imaginário isso somente poderia acontecer em espaços geográficos que têm falta de educação, falta de higiene, falta de boas intenções. Ledo engano. A ausência de fronteiras está na sociedade como um todo e não nos bairros.
 
Deixar de lado a posição de Pais - encarregados de estabelecer limites, de estimular escolhas e ajudar quando estas forem feitas, e de estimular a noção de cidadãos responsáveis -, cedendo lugar a uma posição excessivamente permissiva, contribui para uma adolescência mais extensa, para a formação de cidadãos menos responsáveis e, principalmente, menos motivados a buscar autonomia, e, nos casos mais patológicos, contribui para desenvolver a sensação de impunidade.

Não estou atribuindo culpa aos pais daqueles jovens. Eu os entendo. Também sou pai e membro desta sociedade que está cada vez mais precisando de fronteiras, não daquelas que nos cerceavam, mas das fronteiras que nos estimulavam

Não são só os jovens que precisam de limites, os adultos também.


Publicado em 05/07/2007

Mauro Nogueira de Oliveira é Consultor de Processos Grupais e Didata da Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos - SBDG.

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