Fronteiras
Com Kurt Lewin aprendi a importância da geografia em nossas vidas, ou seja,
comportamento e desenvolvimento (C) dependem do estado da pessoa (P) e seu meio (M)
(inclui o meio físico, geográfico, cultural) C = F (Função) (P,M). Nessa
equação a pessoa (P) e seu meio (M) têm que ser considerados como variáveis mutuamente
dependentes. Em outras palavras, para compreender ou prever o comportamento, a pessoa e
seu meio devem ser considerados como uma constelação de fatores interdependentes.
Denominamos a totalidade desses fatores de espaço de vida (EV) daquele indivíduo, e
escrevemos C = F (P, M) = F (EV). Portanto, o espaço de vida inclui a pessoa e seu meio
psicológico. (Lewin, K. in Teoria de Campo em Ciência Social).
Esta afirmação me leva ao tempo de infância e adolescência.
Lembro que minha noção de mundo era obtida através de revistas e ouvindo o rádio.
Morava em uma cidade de cinco mil habitantes e era muito difícil imaginar que Porto
Alegre, capital do Estado, já tinha quase um milhão de habitantes e que São Paulo, na
época, já tinha mais de três milhões de habitantes. Como seria isso possível? Jaguari
já era tão grande, como poderia haver espaço para tanta gente? E olha que eu não era
mal informado e já tinha meus doze anos de idade, portanto, já pensava. Mas só podia
pensar com os dados aos quais eu tinha acesso; o resto era fantasia.
Considerando que tenho 57 anos, vivi em uma época em que não havia muitas dúvidas: os
adultos nos ensinavam todas as suas certezas. Algumas dessas certezas nos diziam como
agir, como ser, como fazer em relação ao mundo, em relação aos outros e em relação a
nós mesmos. Definiam fronteiras rígidas que, na maioria das vezes, eram por eles
significadas como expressão de amor.
Tais fronteiras serviram de motivação para tentar 'escapar' daquele ambiente
controlador, fazendo com que saíssemos em busca de estudar em outra cidade,
principalmente na capital, arrumar um emprego ou casar, ações que significavam ter mais
liberdade, ampliar o espaço de vida, criar novos espaços geográficos e,
conseqüentemente, novos espaços psicológicos.
Sair do ambiente controlador não significava, contudo, que as fronteiras deixassem
existir. Ampliavam-se, não extinguiam-se, até porque já estavam internalizadas e
precisávamos delas. Precisávamos porque estas fronteiras nos davam a sensação de
pertença, nos situavam em um determinado espaço geográfico e permitiam que
freqüentássemos os espaços sociais correspondentes. Significavam também que estávamos
sendo cuidados. Se não satisfeitos, procurávamos rompê-las através de um
"salto" social e/ou educacional/profissional.
Um dos aprendizados que aquele ambiente controlador nos trouxe foi o de que deveríamos
ser mais amigos de nossos filhos do que nossos pais foram, o que, no entanto, terminou por
nos levar a ser mais amigos do que pais de nossos filhos ao fazermos com que as fronteiras
que nos serviram de catapultas, de obstáculos a serem superados e que nos ensinaram a
fazer escolhas, começassem a deixar de cumprir estas funções. Compreendíamos que
amigos não colocam fronteiras, amigos apóiam, amigos estimulam e amigos mais velhos
protegem.
De maneira alguma quero cometer o pecado da generalização, pois há pais que, mesmo
correndo o risco de serem caretas, não deixaram de estabelecer as fronteiras
saudáveis, protetoras e, ao mesmo tempo, estimuladoras. Refiro-me àqueles outros pais
que no afã de serem amigos esqueceram de definir tais fronteiras.
O momento mundial é de queda de fronteiras geográficas e um volume de informação
impossível de ser processado por uma pessoa. A noção de mundo mudando, os mercados se
tornando 'Comuns', o dinheiro começando a ser 'Comum', a China caminhando em direção a
um livre mercado.
Este momento de movimentação de fronteiras rígidas para fronteiras difusas faz com que
os limites nas relações também fiquem difusos. Tenho a impressão de que todos estamos
pedindo limites.
Por tudo isso, consigo entender a violenta agressão que sofreu a empregada doméstica no
Rio de Janeiro, por parte de cinco jovens "bem educados", membros de "boas
famílias", filhos de pais muito "bem intencionados", morando em espaços
geográficos "privilegiados", ou seja, tudo contribuindo para que a agressão
não acontecesse, pois em nosso imaginário isso somente poderia acontecer em espaços
geográficos que têm falta de educação, falta de higiene, falta de boas intenções.
Ledo engano. A ausência de fronteiras está na sociedade como um todo e não nos bairros.
Deixar de lado a posição de Pais - encarregados de estabelecer limites, de estimular
escolhas e ajudar quando estas forem feitas, e de estimular a noção de cidadãos
responsáveis -, cedendo lugar a uma posição excessivamente permissiva, contribui para
uma adolescência mais extensa, para a formação de cidadãos menos responsáveis e,
principalmente, menos motivados a buscar autonomia, e, nos casos mais patológicos,
contribui para desenvolver a sensação de impunidade.
Não estou atribuindo culpa aos pais daqueles jovens. Eu os entendo. Também sou pai e
membro desta sociedade que está cada vez mais precisando de fronteiras, não daquelas que
nos cerceavam, mas das fronteiras que nos estimulavam
Não são só os jovens que precisam de limites, os adultos também.
Publicado em 05/07/2007
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