Grandes e pequenos partidos
Por Marco Aurélio Nogueira
Aberto formal e efetivamente o processo eleitoral, algumas antigas e já bastante
discutidas questões voltam a intrigar analistas e eleitores.
Como explicar a facilidade com que adversários incondicionais e muitas vezes furiosos no
plano nacional se coligam em várias cidades do país, numa demonstração de elasticidade
que beira a irresponsabilidade? Como entender que aliados históricos, afinadíssimos no
combate ao governo federal, não consigam caminhar juntos em alguns municípios e cheguem
mesmo, como ocorre em São Paulo com o PSDB e o DEM, a se converter em adversários e
facilitar as coisas para candidatos de partidos contra os quais se batem por toda parte?
Partidos amigos no plano nacional convertem-se em inimigos no plano municipal e emprestam
apoio a chapas que não se coadunam com os propósitos proclamados nos estatutos e
documentos partidários. A "esquerda" alia-se sem muito pejo com a
"direita", dando origem a blocos desprovidos de coerência profunda. As disputas
regionais são mais fortes que as nacionais e praticamente proíbem que os candidatos se
declarem fiéis ou leais ao que quer que seja. Não é por acaso que os políticos não
lidam bem com a fidelidade partidária e vivam tentando flexibilizá-la ou burlá-la,
quase sempre em nome de uma necessária dose de "liberdade de pensamento e
ação" ou da alegação de que o quadro partidário é jovem demais para ser
racionalmente estruturado. Muitos dos atritos entre o Poder Judiciário e a política
passam por aí. Boa parte das decepções do cidadão também.
Dado o caráter do federalismo brasileiro e do próprio regime presidencial instalado por
aqui, as eleições municipais têm enorme valor estratégico. Jogam papel determinante
tanto na sustentação dos governos estaduais e federal quanto na dinâmica das eleições
para governadores e presidente da República. Deste ponto de vista, 2008 é a ante-sala de
2010. E quase tudo o que é feito hoje tem um olho depositado no que será feito daqui a
dois anos.
O eleitor tem motivos de sobra para se sentir perdido e ludibriado. Dada a incoerência
com que se depara, é como estivesse abandonado pelos políticos e pelos partidos.
E o que dizer então da força que ganham as pequenas legendas? Muitas vezes, os grandes
partidos, ou os candidatos mais fortes, entregam-se a uma luta insana para obter o apoio
dos pequenos. Fazem de tudo para integrá-los em suas coalizões, prometendo-lhes mundos e
fundos e anunciando-os como fatores decisivos, verdadeiros fiéis da balança. Quase
sempre a operação é feita simplesmente para prejudicar os adversários, na linha da
máxima "o inimigo de meu inimigo é meu amigo", ou seja, com o objetivo mais de
atrapalhar que de somar ou agregar. É a sedução usada como mero artifício de campanha,
sem muita sinceridade ou rigor.
São evidentemente operações legítimas, sancionadas por qualquer bom manual de
estratégia política. É impossível criticar os partidos por desejarem mais apoio para
suas chapas ou por pretenderem embaçar a vista e embaralhar os passos dos adversários.
Apoios, em política, são como o sal da terra. Sempre têm alguma tradução prática e
muito valor simbólico.
Coligações eleitorais pesam em termos contábeis. Fornecem aos partidos recursos de
campanha, material de divulgação, minutos importantes na propaganda eleitoral, tribunas
alternativas em certos setores, áreas ou regiões, além da possibilidade de ampliar os
apoios pela via da multiplicação do número de candidatos comprometidos com o vértice
da coligação.
Ao serem buscados e concretizados, os apoios funcionam como atestados de flexibilidade,
desprendimento e largueza de visão, prova de que os candidatos não querem tudo, estão
abertos a compartilhar os frutos da vitória desejada, como se desejassem demonstrar uma
generosidade que a disputa pelo poder tende a ofuscar ou a impedir. Há alianças que
simbolizam um compromisso com o futuro, outras que espelham a nova face de um partido,
outras ainda que são um esforço para revalidar identidades ou sugerir caminhos
alternativos. Pode ser extraordinário, por exemplo, o efeito simbólico da inclusão, no
mesmo palanque, de pessoas que pensam diferentemente ou de antigos adversários, figuras
dotadas de carisma específico, heróis de batalhas passadas, ícones da nacionalidade.
Mas os grandes partidos não costumam ser muito generosos quando se trata de decidir quem
ocupará a "cabeça da chapa". Nestes casos, o desprendimento é bastante
relativo, e muitas vezes não passa de dissimulação e jogo de cena.
Partidos são seres de duas almas: a conquista do poder e a organização dos interesses e
opiniões. A primeira delas exige visão tática e estratégica, é fria e obstinada, não
mede esforços para se completar. A segunda depende de cultura, ideologia, teoria social,
empuxo programático, marcas de identidade. Alianças sem outro critério que não o de
viabilizar o acesso ao poder, ainda que legítimas, não ajudam à alma substantiva dos
partidos e podem até mesmo feri-la, apequená-la ou descaracterizá-la. Justificam-se no
curto e médio prazo, mas podem ser letais no longo prazo se, por exemplo, chamuscarem a
identidade e a coerência doutrinária dos partidos.
Não se trata de uma escolha de Sofia. As duas almas são indispensáveis para o partido
político. Há momentos em que simplesmente não há como escolher, os fatos empurram as
decisões. Mas o ideal seria sempre manter as almas em equilíbrio e integração, até
para que uma possa moderar ou chamar às falas a outra.
O problema é que hoje, nestes tempos "líquidos", consumistas e velozes em que
vivemos, a alma programática e ideológica encontra-se combalida, menosprezada e sem eixo
para se sustentar. Com isso, a volúpia pelo poder ganha completa independência e espalha
sua lógica pelo sistema político e pelos mais diferentes circuitos sociais.
[O Estado de S. Paulo, 26 de julho de 2008]
Publicado em 04/08/2008, com autorização do autor.
Marco Aurélio Nogueira é professor de Política na Unesp/Araraquara e autor,
entre outros livros, de As possibilidades da política: idéias para a reforma
democrática do Estado (Paz e Terra, 1998) e Em
defesa da política (Senac São Paulo, 2001), e
Um Estado para a sociedade civil. Temas éticos e políticos da gestão democrática (Ed.
Cortez, São Paulo, 2004). É também um dos organizadores da edição brasileira
dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci
(Record, 1999-2001).
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