A sociedade como sacrifício
Basta passar os olhos pelo noticiário ou observar a vida cotidiana para notar que algo
desafina no plano das instituições. A insatisfação com elas é difusa. O mal-estar
dentro delas, indisfarçável. Elas nos desagradam, aborrecem-nos ou não nos inspiram
confiança, seja na política (partidos, casas legislativas), na educação (escolas,
universidades) e na segurança pública (polícia, presídios), seja na economia
(empresas, mercados) e na vida associativa primária, na família.
Precisamos de sociologia para discutir o ponto. Não dá para achar que as instituições
falham porque são defeituosas, mal dirigidas ou mal organizadas.
Nossa época está atravessada por três processos que se superpõem, potencializando a
globalização, a conectividade geral e o ritmo veloz que imperam por toda parte. As
sociedades modernas estão sendo gradativamente reconfiguradas, antes de tudo, pela
individualização: os indivíduos se soltam dos grupos, que sobre eles
exercem cada vez menos poder e controle. Soltando-se dos grupos, soltam-se também das
instituições. A individualidade se tornou um valor inestimável, tanto no sentido da
privacidade, quanto no sentido da autonomia moral, do pensar e decidir com a
própria cabeça. E muitos destes indivíduos individualizados se tornam individualistas,
egoístas, indiferentes aos demais.
Individualização, individualidade e individualismo tornaram-se assim condições
estruturais. Combinados com os demais traços da época, explicam muitos dos dilemas
associativos atuais, que refletem um quadro de dessolidarização. As
instituições não funcionam bem porque não conseguem incluir, congregar e coordenar os
indivíduos, que delas escapam ou a elas se tornam indiferentes. Os indivíduos necessitam
delas, mas são levados a viver como se seguissem uma carreira-solo, alheios a vínculos e
compromissos coletivos.
Nem sequer na dimensão privada da vida as coisas estão ajustadas. O alto índice de
divórcios, os crimes passionais hediondos e os novos formatos de família e
relacionamento revelam que certos equilíbrios foram perdidos, mas também sugerem a
presença de um maior desejo de liberdade. Conservadores e tradicionalistas, com maior ou
menor dose de ingenuidade, acreditam que tudo se deve à degradação dos costumes, que se
recuperariam caso a ordem e o rigor moral voltassem a prevalecer no seio das famílias.
Para eles, o desejo de liberdade é subversivo e precisa ser contido.
Devemos pensar com cuidado. A vida coletiva não se esgotou, nem as pessoas e os grupos
andam às tontas pelo mundo. Todos sabem que uns precisam dos outros e que todos precisam
de limites e coordenação, mas a tendência prevalecente indica que o poder das
instâncias coletivas se reduziu. Ele continua a existir, evidentemente, mas não porque o
coletivo forneça direção e identidade para seus integrantes ou aumente a potência
deles como sujeitos, e sim porque lhes possibilita reforçar demandas e posições.
Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/06/2009, p. A2.
Publicado em 02/07/2009, com autorização do autor.
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