Tá me gozando?!?
Luciana Oltramari Cezar
É com indignação que escutamos ou lemos o que os meios de comunicação nos mostram.
Estão achando que nós somos idiotas. O Ministro da Justiça diz que acredita e deseja
que o presidente do senado seja inocente. Que ele deseje, tudo bem, eu também desejaria,
mas que acredite....Às vezes até pode dar vontade de crer que não é verdade, porque é
enlouquecedor e de uma desesperança profunda.
O presidente do senado diz: "Liberdade de imprensa exige equilíbrio, serenidade,
ética e responsabilidade. Sem responsabilidade, abre-se espaço para o excesso, para a
pirotecnia em desfavor das instituições e a bem do sensacionalismo". Ética e
responsabilidade é bom mesmo se ter... Às vezes a tática é inverter, virar vítima
para que quem está denunciando se culpabilize e pare. Será que tem alguém que ainda
acredita? Como diz o escritor Leo Cunha "o pior cego é o que não tem
ponto-de-vista". O senador diz ainda que a palavra renúncia não consta em seu
dicionário. É verdade porque, para não fazer abuso do que é alheio, é preciso
renunciar. Não se pode roubar somente porque se vai preso. Na verdade não pode porque
não se rouba, isso não se faz. É necessário renunciar ao prazer total e ilimitado para
se inserir na sociedade, para ser um cidadão. Há coisas que não se pode fazer.
A comissão de ética do senado o que menos parece ter é justamente ética. O senador
Pedro Simon não foi mais indicado para este conselho por, segundo ele, "defender
umas teses que não são muito usuais ética, moral, essas coisas". A
ministra pede que se relaxe e goze, o ministro da fazenda diz que o caos aéreo é "a
prosperidade do país" atribuindo ao enriquecimento das pessoas. Não posso crer no
que ouço! É cômico, para não dizer trágico. Parece piada. Só podem estar gozando
conosco. E uso a palavra "gozando" de propósito, em seu duplo
sentido: que estão brincando conosco, mas também de abuso e desconsideração, do gozo
perverso. Quando alguém não leva o outro em consideração, usa-o como um objeto para
satisfação própria, dizemos, em linguagem psicanalítica, que a pessoa está gozando.
Tudo isso nos revolta, então escrevemos para mostrar o valor que a palavra tem, que nos
tira da passividade. É uma maneira de protesto, de fazer pressão, porque se algumas
poucas mudanças ocorreram, não foram porque os políticos ficaram com remorso ou
vergonha, mas por pressão da sociedade. Aliás, vergonha é o que mais lhes falta.
Escrever é uma maneira de se recusar a aceitar os fatos, que não se tornem banais. Não
podemos nos eximir de nosso ofício, a partir do conhecimento e discernimento que temos.
Publicado em 21/07/2007
Luciana Oltramari
Cezar - Psicanalista
Projeto - Associação Científica de
Psicanálise - Passo Fundo - RS
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