O Turismo Criativo
Por Gisela Kassoy
Você conhece a caramanhola", aquela garrafa feita para ciclistas? Sua tampa
não precisa ser aberta ou fechada, permitindo que a água seja bebida mesmo com a
bicicleta em movimento. Além disso, o líquido nunca escorre e nem suja, pois o
recipiente fica vedado. Pois bem, essa garrafa segue os princípios de uma válvula
cardíaca, e funciona da mesma forma que ela.
Soluções criadas para outros universos são fontes inesgotáveis de idéias inovadoras,
pois obrigam a quebrar paradigmas. Chamo isso de turismo criativo, a busca de inovações
e soluções em universos diferentes.
No gráfico abaixo ilustro várias formas de se obter dicas para inovações por meio do
que viagens de corpo e mente rumo a novas idéias:

Mais próximo ao foco estão as pesquisas junto a clientes, usuários ou usuários
potenciais.
Pessoas que adotaram produtos e serviços e que darão indícios que poderão resultar em
idéias revolucionárias. Mas não adianta pesquisar da maneira convencional. Perguntas
tradicionais obterão respostas igualmente tradicionais e nem sempre verdadeiras.
Normalmente esses públicos possuem uma vaga noção de suas ambições e do que os
incomoda... É melhor observar do que perguntar. Você saberia dizer quais são suas
expectativas em relação ao cabo de uma escova de dentes? Foi observando seu uso que os
designers da IDEO chegaram a um cabo mais grosso e mais confortável para as mãos dos
usuários.
Atuo junto aos clientes visando buscar formas não lineares de obter informações, seja
observando o comportamento dos usuários presencial ou virtualmente, seja analisando seus
lixos, suas casas ou ainda provocando situações nas quais eles estarão usando o produto
ou serviço.
Já os lead users, pessoas que adotaram produtos e serviços com entusiasmo podem
ter até idéias prontas, e com certeza os indícios serão inúmeros. O papel de quem
quer inovar é estar entre eles e dar espaço para que eles troquem as informações de
interesse. Blogs, comunidades de prática, encontros presenciais são fontes excelentes. O
importante para conhecer os desejos dos clientes e estar aberto para se surpreender.
Num nível um pouco mais distante do foco estão as soluções análogas. Este nível é
mais recomendado para o desenvolvimento de produtos. Por exemplo, a 3M obteve dados
importantes para a confecção de pele artificial para enxertos conversando com
maquiadores da Broadway. Evidentemente, a idéia do maquiador não caiu do céu. Foi
pensando no problema em questão e buscando sistematicamente profissionais que poderiam
ter algo a contribuir que a 3M chegou nele.
Propositalmente distantes do seu foco estão a arte e as vivências ou visitas
necessariamente fora da zona de conforto de quem quer inovar. Ao sair da rotina, as
pessoas aprendem com o diferente, pois obtém novas informações, quebram
paradigmas, estimulam a curiosidade. As artes, pessoas que atuam em profissões
exóticas, sites diferentes são fontes inspiradoras. O foco não está sendo desprezado,
mas sim servindo de atalho para chegar a idéias originais. O Estímulo Aleatório, uma
das mais populares técnicas de geração de idéias criada por Edward de Bono,
utiliza justamente a associação da situação a temas não relacionados para provocar
alternativas diversificadas.
Comece sua busca já. Passe a observar o mundo com olhos ávidos. Einstein dizia que não
dá para resolver um problema com a mesma atitude mental que o criou. É quase tão
difícil quanto inovar olhando apenas para o que já foi criado.
Publicado em 08/06/2007
Gisela Kassoy é consultora, especialista em Criatividade e Inovação e atua
para clientes como Festo, Springer Carrier e Grendene. Graduada em Comunicações, fez sua
especialização em alguns dos maiores centros mundiais de Desenvolvimento da Criatividade
para adultos, entre eles a Creative Education Foundation e o Center for Creative
Leadership, nos EUA, e o Management Center Europe, na Bélgica, onde fez a formação no
Pensamento Lateral com o Prof. Edward de Bono. Percebendo a importância do meio ambiente
na capacidade de expressão criativa das pessoas, fez pós-graduação em Dinâmica de
Grupos na PUC/SP e formação em Dinâmica de Grupos na Sociedade Brasileira de Dinâmica
de Grupos. É psicodramatista e adaptou várias técnicas do teatro, que praticou por
alguns anos, para o resgate e desenvolvimento da criatividade nas organizações.
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