I. N. S. I. - Índice Nacional de Safadeza e Insensatez
Por Francisco Carlos dos Santos Filho


Esperei algum tempo. Não queria ficar com a sensação de que escrevia no calor dos fatos e me aproveitando das altas temperaturas para meter-me com temas que exijam reflexão mais demorada, engrossando a onda na qual todos embarcam e que, logo depois, termina.

Também não estou inovando em nada. Uma outra colega, a argentina Silvia Bleichmar, cuja perda recente nos consternou a todos, já havia proposto um índice para medir a dor de um país. Comparado com o "Risco País", o indicador de Silvia se chama "Dor-País". Como se mede dor-país quando, para reduzir o risco-país e atender à demanda dos interesses da economia globalizada, milhares de vidas humanas são tratadas com desrespeito absurdo e cego, tocado a números e cifras?

O meu índice é diferente. Proponho que todos os pensadores, dessa e de outras terras, comprometidos com as causas humanas e com a ética, se manifestem quando o I.N.S.I. – Índice Nacional da Safadeza e da Insensatez – ferir os limites da nossa sensibilidade. Façamos como se cada um de nos pudesse valer-se de seus espaços públicos para fazer ver que o índice atingiu pontos absurdos a cada evento que assim o justifique.

A lista de tais eventos é muito longa, dolorosamente longa, e se vê engrossar a cada dia com declarações que deixam estupefatas nossas inteligências pelo tamanho do acinte que a elas realizam. Dessa maneira podemos ver ministros dos Tribunais Superiores brigando por causa de salários, Presidentes das mais altas câmaras legislativas do país metidos em falcatruas inimagináveis, Deputados e Senadores da República formando máfias destinadas à perpetuação no poder, enquanto centenas de pessoas – pela negligência oficial frente a um caos anunciado – morrem despencando de aviões e o próprio Presidente da República se faz de desentendido e diz coisas que deixariam corada mais incauta criatura que ainda conserve algum grau de vergonha e compostura.

Por favor, não esperem de mim que lhes desfie a lista. Agora não posso. Estou cansado demais para ter disposição e ver alguma graça nisso. Alem disso, acho que de tanto aguardar o momento mais apropriado, onde minhas palavras não soassem oportunistas e quando já não houvesse tantas novidades desse tipo ocorrendo uma após a outra, acabei esperando demais. Fui acumulando tantas ocorrências e exemplos que minha memória já não pode mais dar conta mais sozinha. Quem puder e quiser que me ajude, refrescando a   memória  e analisando criticamente alguns desses fatos. Eles estão aí todo dia, pipocam de cada canto do noticiário e de vários espaços de nossas vidas sem demonstrar traço algum de pudor.

De verdade, só temo uma coisa: que esse acúmulo e esse cansaço acabem por fazer com que percamos nossa capacidade de discriminar e nos conduza ao terrível hábito de ver tudo isso sem que nossa indignação se desperte. Seria uma bárbara banalização do mal, como diria Hanna Arendt. É coisa que pode surgir quando, de tanto ocorrerem, a violência e o mal se burocratizam e se tornam parte do comum infiltrado em nosso cotidiano. Isso me preocupa e sobressalta.

No mais, espero que o futuro me reserve mais de paciência e espaço de memória para tratar de indicar quando o INSI atingir níveis intoleráveis ao meu sensor ético. Agora, simplesmente não saberia por onde começar.


Publicado em 07/10/2007

Francisco Carlos dos Santos Filho é psicanalista e diretor científico do grupo "Projeto - Associação Científica de Psicanálise" Passo Fundo - RS

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