I. N. S. I.
Índice Nacional de Safadeza e Insensatez
Esperei algum tempo. Não queria ficar com a sensação de que escrevia no calor dos fatos
e me aproveitando das altas temperaturas para meter-me com temas que exijam reflexão mais
demorada, engrossando a onda na qual todos embarcam e que, logo depois, termina.
Também não estou inovando em nada. Uma outra colega, a argentina Silvia Bleichmar, cuja
perda recente nos consternou a todos, já havia proposto um índice para medir a dor de um
país. Comparado com o "Risco País", o indicador de Silvia se chama
"Dor-País". Como se mede dor-país quando, para reduzir o risco-país e atender
à demanda dos interesses da economia globalizada, milhares de vidas humanas são tratadas
com desrespeito absurdo e cego, tocado a números e cifras?
O meu índice é diferente. Proponho que todos os pensadores, dessa e de outras terras,
comprometidos com as causas humanas e com a ética, se manifestem quando o I.N.S.I.
Índice Nacional da Safadeza e da Insensatez ferir os limites da nossa
sensibilidade. Façamos como se cada um de nos pudesse valer-se de seus espaços públicos
para fazer ver que o índice atingiu pontos absurdos a cada evento que assim o justifique.
A lista de tais eventos é muito longa, dolorosamente longa, e se vê engrossar a cada dia
com declarações que deixam estupefatas nossas inteligências pelo tamanho do acinte que
a elas realizam. Dessa maneira podemos ver ministros dos Tribunais Superiores brigando por
causa de salários, Presidentes das mais altas câmaras legislativas do país metidos em
falcatruas inimagináveis, Deputados e Senadores da República formando máfias destinadas
à perpetuação no poder, enquanto centenas de pessoas pela negligência oficial
frente a um caos anunciado morrem despencando de aviões e o próprio Presidente da
República se faz de desentendido e diz coisas que deixariam corada mais incauta criatura
que ainda conserve algum grau de vergonha e compostura.
Por favor, não esperem de mim que lhes desfie a lista. Agora não posso. Estou cansado
demais para ter disposição e ver alguma graça nisso. Alem disso, acho que de tanto
aguardar o momento mais apropriado, onde minhas palavras não soassem oportunistas e
quando já não houvesse tantas novidades desse tipo ocorrendo uma após a outra, acabei
esperando demais. Fui acumulando tantas ocorrências e exemplos que minha memória já
não pode mais dar conta mais sozinha. Quem puder e quiser que me ajude, refrescando a
memória e analisando criticamente alguns desses fatos. Eles estão aí todo
dia, pipocam de cada canto do noticiário e de vários espaços de nossas vidas sem
demonstrar traço algum de pudor.
De verdade, só temo uma coisa: que esse acúmulo e esse cansaço acabem por fazer com que
percamos nossa capacidade de discriminar e nos conduza ao terrível hábito de ver tudo
isso sem que nossa indignação se desperte. Seria uma bárbara banalização do mal, como
diria Hanna Arendt. É coisa que pode surgir quando, de tanto ocorrerem, a violência e o
mal se burocratizam e se tornam parte do comum infiltrado em nosso cotidiano. Isso me
preocupa e sobressalta.
No mais, espero que o futuro me reserve mais de paciência e espaço de memória para
tratar de indicar quando o INSI atingir níveis intoleráveis ao meu sensor ético. Agora,
simplesmente não saberia por onde começar.
Publicado em 07/10/2007
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