Filhos adolescentes, pais aprendizes
Cristiane Schirmbeck


Em uma crônica chamada "Amor, o interminável aprendizado", de Affonso Romano de Santana, há um trecho que diz: "... Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente. Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo, ensimesmado. Não havia jeito. O amor era mesmo e sempre diferenciado. O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado...".

Quem é pai ou mãe e tem filho adolescente sabe o quanto o amor pode ser o mesmo e sempre diferente. O adolescente de hoje, ontem era criança e dependia totalmente dos seus cuidados. Na visão da criança, estes sabem o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não pode fazer, logo o que é dito pelos pais é acolhido atentamente pela criança. Na infância, os pais são os super-heróis: sabem, fazem, decidem e, assim, manifestam seu amor.

Porém, o tempo passa e surge uma contestação: os filhos cresceram, já não são mais crianças, embora ainda não sejam adultos. Este é um momento de confusão, pois se há um lado conhecido e familiar da infância, há outro em que se dão intensas e rápidas transformações externas (corpo) e internas (psique). Definitivamente, eles não são mais os mesmos de alguns anos atrás, quando faziam o que o professor mandava, não questionavam as ordens do pai e da mãe. Mas fazem isto hoje, justamente porque precisam livrar-se do que os prende a infância. Surge o grupo, a turma, como uma ponte entre a família e a sociedade. Os segredos e interesses, que antes eram divididos com os pais, agora passam a ser discutidos com os amigos. E são essas tentativas de se tornarem sujeitos, donos de sua história, que marcam o início da adolescência.

Os adolescentes sabem que, para isto, precisam separar-se psicologicamente de seus pais, e o fazem quando protestam, opõem-se as idéias dos mais velhos, testam a autoridade, criticam ostensivamente, adquirem hábitos e repetem gestos que desagradam. Vivem num momento de ambivalência, pois, se, por um lado sentem-se atraídos e ao mesmo tempo, assustados pelos desafios que o mundo extra-familiar lhes apresenta, por outro lado, sentem-se temerosos em abandonar os pais que os protegem dos obstáculos e sofrimentos da vida. Entretanto, é a maneira que eles têm de marcar o seu lugar, de posicionar sua idéias, revelar seu s desejos.

E onde ficam os pais? Ficam de olho no futuro e relembrando o passado. Por mais que tenham consciência das características desta fase, que sejam tolerantes e compreensivos, sentem-se em muitos momentos, impotentes e angustiados. Nesta fase pais revivem sua própria adolescência e, não raro, se percebem com atitudes semelhantes à de seus filhos e talvez também se recordem e se percebam hoje parecidos com seus pais.

A adolescência se recapitula a infância e a maneira como cada sujeito percorreu essas etapas da vida. É um contato do sujeito com sua própria história, e por isso a tonalidade de seus conflitos íntimos ante a luta de ver seus filhos crescerem irá depender da história de cada um dos pais.

Esse processo se dá com encontros e desencontros. Os pais têm o desejo de ver seus filhos crescidos, independentes e sabem que, para isso, precisam afastar-se, permitindo que se desprendam, mas também se ressentem de perdê-los e, junto, todos os processos e sonhos que planejaram. É um momento repleto de contradições e mudanças. Alguns pais sentem-se rejeitados quando os filhos deixam de solicitá-los, defrontando-se com sentimentos de inutilidade, solidão, além de temerem perder a função de pais. Frente a sentimentos muito intensos nesse processo, alguns ainda apresentam dificuldades de perceber a capacidade que o filho já adquiriu de fazer, as coisas por si mesmo e tendem a superprotegê-lo e abafar sua autonomia ou abandoná-lo, superestimando suas possibilidades. Por vezes, enfim confundem controle com proteção.

Não se trata de sermos pais ou filhos perfeitos, mas de podermos aceitar-nos como pais, com qualidades e falhas de nossos filhos, condição que certamente não começa na adolescência, mas já no estabelecimento das primeiras relações mãe/ bebê.


Publicado em 11/08/2007

Cristiane Schirmbeck - Psicanalista
Projeto - Associação Científica de Psicanálise - Passo Fundo - RS

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