Artur de



ARTUR DE CARVALHO


Escritor, jornalista, publicitário, cartunista, ilustrador, colabora com o Diário de Votuporanga, interior de São Paulo, desde 1997. É autor dos livros "O Incrível Homem de Quatro Olhos" e
"Pah!" (Vialettera Editora, 2003).

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O voyerismo cruel
dos desequilibrados


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SOBRE O ESCRITOR

"Da felicidade dele em descobrir sua verdadeira vocação, vem a nossa, de descobrir seus textos leves, suas observações reluzentes, seu humor doído de tão humano. E assim, sem podermos ter as múltiplas faces que o autor colecionou pela vida, somos brindados pela doce viagem de sermos sócios delas, e entrarmos em sua casa, sua família, sua Votuporanga, que poderia ser Porto Alegre, São Paulo ou Nova Iorque." (Custódio)
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Carvalho
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O que é que nós estamos esperando?


Este país está se tornando uma imensa Câmara dos Deputados. Agora, ninguém mais trabalha na sexta-feira. São três feriadões, um seguido do outro. Na quinta-feira, todo mundo já começa a empurrar o serviço com a barriga. Do jeito que vai, em vez da gente mudar a política nacional, é a política que vai mudar a gente. Parece festa. A gente só vê neguinho  combinando churrasco, viagens para a praia, pescarias no rancho, festinhas em casas suspeitas.

- E aí, vai pra onde no feriadão?

- Vou visitar minha sogra com a família, mas no outro eu vou pra Caraguatatuba.

- Mas e "aquela" nossa pescaria?

- A gente vai no outro feriado, já está tudo acertado com as... ham... meninas.

Afinal, se o presidente pode viajar pra cima e pra baixo, porque é que a gente não pode também? Tá todo mundo querendo é fazer festa. Tem neguinho vendendo carro para comprar TV de Plasma 52 polegadas pra assistir a Copa do Mundo. Aliás, nem vendendo carro eles estão mais. O que a gente mais vê é neguinho passando cheque sem fundo na maior cara de pau. Afinal, se o Serra pode assinar documentos e depois dizer que aquela assinatura não vale nada, todo mundo pode, não pode?

Talvez até seja melhor assim. Dar-nos por vencidos. Em vez de ficarmos lutando contra a cafajestada, vamos todos nos tornar cafajestes também. Quebrar um sigilozinho bancário aqui, aceitar um subornozinho acolá... Todo mundo faz isso hoje em dia, qual é problema?

E, se nossas esposas começarem a chegar em casa com uns presentinhos suspeitos, uns perfumes estrangeiros, umas jóias ou uns vestidos de grife, a gente nem ia precisar ficar bravo. São só umas lembrancinhas, depois elas poderiam doar tudo para umas instituições de caridade e pronto, não tem problema nenhum, afinal, tem primeira dama por aí fazendo a mesma coisa,
oras.

E isso sem contar os nossos jovens. Outro dia mesmo minha filha chegou pra mim com uma idéia revolucionária. Era o seguinte: eu vivo reclamando que ela não lava a louça, que ela deixa o quarto todo bagunçado, que ela larga todas as lâmpadas da casa acesas mesmo quando está dormindo. E como ela está desempregada, a gente podia chegar a um acordo. Ela passaria a fazer tudo o que eu quisesse, mas eu teria que pagar para ela uma graninha por mês. Não seria exatamente uma mesada, já que a gente dá uma mesada para o filho sem esperar nada em troca.

- Seria uma espécie assim de... MENSALÃO!


Publicado em 23/04/2006

 



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