Pai e filho, e a idéia de uma nação
Por Luciano Miranda*
A Nostalgia é um sentimento relativo ao que aconteceu ou ao que deixou de acontecer; uma
saudade do exilado da pátria, que foi ou poderia ter sido. Tanto faz sua efetividade, sua
materialidade, a nostalgia não pertence ao mundo sensível. Apesar de as sensações
concorrerem para a sua constituição, pertence ao mundo das idéias, e, sendo assim, não
se presta ao preenchimento convencional de coordenadas temporais: é uma idéia
sentimental ou um sentimento proveniente das idéias, emergente, porém, da história.
Nostalgia ocorre ao nos referirmos a Sérgio Buarque de Holanda e a Chico Buarque de
Holanda.
Pai e Filho. Se para o catolicismo a associação do Espírito Santo a estes expressa a
Santíssima Trindade, esta, para aqueles, poderia expressar-se mediante a associação da
Idéia. O Espírito é a Idéia. Idéia associada ao pai e ao filho. Que Idéia?
Fundamentalmente, a idéia de uma nação. É esta, feita em sentimento, que nos torna
nostálgicos quando ocorre o nome destes autores. A idéia de uma nação que foi ou que
poderia ter sido. Ou, ainda, que foi ou será, tão-só na dimensão platônica das
idéias. Fato é, que estamos todos carentes, talvez um pouco órfãos, dessa nação
idealizada. Carecemos dos pais fundadores, fornecedores da carga genética que a modelou e
do alimento que a nutriu.
É por isso que a referência a Sérgio e a Chico nos dá nostalgia. Precisamos
redescobrir as raízes que sustentam esta nação, pois do seu sustento depende o nosso
próprio. Não obstante, a semelhança entre estes autores não acontece somente no plano
familiar, ela se processa na teleologia de suas idéias: para que elas se prestam; seu
objetivo. Por outro lado, a diferença, em essência, é de forma; é de como elas se
expressam.
Reservadas as marcas individuais, idiossincráticas e de matizes próprios, de Sérgio e
de Chico, se extrai uma dimensão política, sem prejuízo de outras possíveis
dimensões, que mesmo estas impregna, uma perspectiva voltada e devotada à esfera
pública. Empreendimento nada simples, haja vista o poder das relações privadas, da
esfera da intimidade, nas gestões locais da coisa pública, numa espiral abissal de
patrimonialismo, patriarcal e autoritário, fomentador do espírito de facção, tão
perceptível mesmo nos nossos dias.
Sérgio, para tanto, se expressou pela palavra, numa conjuntura em que os intelectuais
brasileiros, ainda prestigiados, dedicavam-se à "invenção" da nação, de um
país chamado Brasil. Porém, tal palavra deixara de ter função praticamente para si,
fundando uma linha de análise de perfil mais acadêmico e menos literário (mas sem
prejuízo do texto). Por um lado, aparece Gilberto Freyre com um viés mais sociológico.
Por outro, Sérgio Buarque de Holanda, mais historicista. O novo, na "ruptura"
levada a cabo por ambos, é justamente a dimensão analítica. Sem o abandono da
prescritiva ou normativa, compreenderam que para projetarmos nosso futuro deveríamos
voltar o olhar para o passado, descrevendo-o, a fim de analisá-lo.
Tal empreendimento, com o necessário distanciamento e o abandono das possíveis paixões,
não fora fácil à época de Sérgio: radicalizações ideológicas, gradual
polarização global - acelerada com a dêbácle do nazi-fascismo -, crise geral
da modernidade. Soube, porém, reservar as devidas distâncias e críticas, com relação
ao presente e ao passado, logrando testemunhar o amadurecimento do país inventado. Essa
invenção se, por um lado, forjou expectativas, esperanças (breve período democrático
no pós-Guerra, desenvolvimentismo e modernização, efervescência das manifestações
artísticas e culturais etc.), por outro, foi elaborada, sem que isso fosse percebido
necessariamente pelos protagonistas da época, com as nossas limitações históricas,
nossos arcaísmos conflitantes com a racionalidade legal, técnica e burocrática,
requerida à gestão do capitalismo tardio. Antagonismo que gera colapso. Colapso que gera
ruptura institucional.
Chico incide na esfera pública brasileira no pós-Golpe de 64. A estrutura social do
país mudara. A sociedade se urbanizara. A indústria cultural florescera e se dinamizara.
Todavia, a intelectualidade acadêmica fora em muito amordaçada. Brechas poderiam ser
abertas, porém, com as manifestações artísticas, menos objetivas que os artigos
científicos - como as alegorias fílmicas de Glauber Rocha - sem perda de conteúdo
objetivo. O câmbio está na forma. Portanto, não nos enganemos com a poesia. Poesia
política. Ela foi e é instrumento, sem ser instrumental ou instrumentalizadora, para o
entendimento da sociedade e a exasperação de suas mazelas. E, mais importante, as
(auto)correções de rota e um sentido de vida, num espaço social renovado e mutante.
Contudo, não remanescem aí aquelas nossas raízes?
*Jurista e jornalista, mestre em comunicação e informação (UFRGS), doutorando em
ciência política (UFRGS), e professor da UPF - Universidade de Passo Fundo.
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