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Chico Buarque & Sérgio Buarque de Holanda:
Intérpretes do Brasil

 







Ben/ja/mim ... será?
Por Dóris Maria Wittmann dos Santos*


"Tudo se extinguira com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos. Mais rápido do que uma bala, o filme poderia projetar-se uma outra vez por dentro das suas pálpebras, em marcha à ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável. E ainda sobraria um fiapo de tempo para Benjamim rever-se aqui e acolá em situações que preferiria esquecer, as imagens ricocheteando no bojo de seu crânio" (Chico Buarque de Hollanda - Benjamim)


Entre a epiderme, exterior, e o coração, interior, jaz a distância, talvez infinita, dos sentimentos que guiam a existência humana. Chico Buarque, em sua obra, vai desenhando o perfil de um homem onde a imagem externa e as vivências internas caem dissociadas a maior parte do tempo. Seria um homem que não vê seus próprios sentimentos? Que necessita sustentar uma imagem diferente de si mesmo. A oscilação perigosa entre o amor e o ódio escapa à compreensão daquele que ignora suas paixões e a extensão que seus atos egoístas podem ter. Digo egoísta no sentido de serem exatamente guiadas por essas únicas paixões. Seriam olhos que não vêem o que está dentro e também não podem ver o que está fora, pois que estão vendados? Seria aquele que somente se depara com a realidade quando jaz destruído por suas próprias mãos? A imagem de um homem inconsciente e guiado pela culpa que toma contato consigo mesmo quando já não há tempo a não ser encarnar sua própria e miserável realidade.

Benjamim se presta para analisarmos desde a perspectiva freudiana o modelo da construção do sonho, dos desejos e da contradição ambivalente entre o amor e o ódio, própria da essência do humano. Aquele que tortura e maltrata é o mesmo que chora. Que aspectos são esses da relação de encontro com o outro humano?

É exatamente aí que se encontra a subjetividade, a paixão do filho, Chico Buarque, com a filosofia do pai, Sérgio, sobre "o homem cordial" - síntese profunda de uma experiência realmente vivida e apreendida.

Toda uma importante crítica à verdade e às relações sociais se constrói a partir da noção da gentileza e da afetuosidade como uma capa protetora contra essa mesma verdade, exatamente a verdade da ambivalência do amor ao próximo. Seria então, em essência, a cordialidade, uma conduta estruturante das relações sociais onde o outro é o espelho, e por isso a imagem passa a ser tão importante. Aqui está a inter-relação entre o psíquico profundo e o social: uma imagem de homem que é sustentada pelo olhar do outro ou dos outros, do entorno social.

Chico Buarque retrata tão bem tudo o que aprendeu com o pai, legado importante do aprendiz de uma crítica sensível: Bem/ja/mim oculta um Mau/ja/mim. Essa é a essência dos sentimentos humanos: a contradição brutal dos nossos nobres ideais.


*Psicóloga, psicanalista, fundadora do PROJETO - Associação Científica de Psicanálise - Passo Fundo, Candidata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.

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