Sérgio e Chico: As Raízes e as Flores
Por Astor Antônio Diehl*
O que se dizer de duas figuras tão ilustres e conhecidas na cultura brasileira que ainda
não teria sido dito?
Talvez, enquanto não vem uma idéia razoável, poderia começar utilizando-me da
metáfora das raízes, título do livro de Sérgio Buarque de Holanda, denominado Raízes
do Brasil, publicado em 1936 e a partir de então desenvolver algo que pudesse
contemplar ambos, pai e filho.
Aprendi de forma simples que uma árvore é composta por várias partes: raízes, tronco,
folhas e flores. Vou ficar somente com duas: as raízes e as flores. As raízes crescem
para baixo no solo e raras vezes aparecem. Normalmente são de cores mais escuras, cinzas
e retorcidas. Fazem um esforço muito grande para descobrir as fendas do solo para tirar
os alimentos necessários para que a árvore possa crescer, produzir ou simplesmente
embelezar. As folhas, por sua vez, são responsáveis para retirar outro tipo de alimento
através da fotossíntese. Juntos delas aparecem às flores. São elas que aparecem para
os nossos olhos e liberam os perfumes que atraem os animais e alegram as pessoas. As
flores precisam aparecer para produzir as sementes e depois morrem.
As raízes são como o passado, não são visíveis, mas sem elas não há a seiva da
vida. Muitas vezes desconhecemos a história, sabemos que algo existiu, entretanto não
conseguimos identificar. Já, as flores, sabe-se que elas aparecem de vez em quando,
normalmente na primavera. Sabemos que cada tipo de árvore dá um tipo de flores, frutos e
sementes com características bem próprias e deles dependem o futuro.
Pois bem, esta idéia inicial objetiva dizer que queremos compreender principalmente a
obra de Sérgio Buarque de Holanda, cujos fundamentos estão relacionados com o nosso
destino histórico, tomadas a partir da tentativa de implantação da modernidade
européia em território brasileiro.
A tese de Sérgio Buarque de Holanda é fundamentada a partir de uma constelação de
elementos regidos pelos contrários - trabalho e aventura, método e capricho, rural e
urbano, burocracia e caudilhismo, norma pessoal e impulso afetivo, público e privado
entre tanto outros, mas amarrados no modo de ser brasileiro e na estrutura social e
política. Portanto, a modernização e a racionalização científica só se tornariam
possíveis no aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura para a
inauguração de um estilo novo, que crismamos talvez ilusoriamente de americano, porque
seus traços se acentuam com maior rapidez em nosso hemisfério.
Assim, a permanência exige o movimento, a incorporação de contribuições sociais e
intelectuais em contato com civilizações mais avançadas, pois aí estaria a
sensibilidade da camada minoritária da sociedade, sensível às influências
modernizadoras, incorporando-as aos valores próprios. Se aceitarmos esta premissa, tal
postura assume um caráter de compromisso que dilui o antagonismo dialético e
transformador, visto aqui como os processos de racionalização com vista à modernidade.
Assim, nossa discussão decorre do fato de que o modernismo, na sua segunda fase, e o
conhecimento histórico apresentam-se apenas como sintoma de ruptura, não significando
uma mudança paradigmática das formas e funções do conhecimento, que podemos denominar
de uma espécie de continuum renovador.
Então, nos interessa discutir a interpretação, o sentido e a função do conhecimento
no futuro das raízes do Brasil ou porque o Brasil não conseguiu retirar os obstáculos
culturais a partir do possível movimento renovador.
Cortar as raízes significa matar a árvore ou em outras palavras eliminar o passado.
Retirar as flores significa não deixa-la produzir sementes, o que implicaria em apagar o
futuro. Ambas as situações tem haver com o futuro. Mas será que precisaria ser uma ou
outra? Desse dilema da cultura brasileira surgem os diferentes caminhos para compreender
as idéias de futuro no passado brasileiro. Esta parece ser a especificidade histórica
com a qual precisar negociar.
*Professor do Curso de História da Universidade de Passo Fundo (RS).
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